domingo, 30 de agosto de 2009

São mesmo sacaninhas

Quente e frio, amargo e doce. Quatro palavras bastam. "Fotografa-se" um filme e negam-se velhos tratados. Numa imagem que pode não ser de todo perfeita mas que elucida, Tarantino foi chocolate quente e a plateia gelado de limão. Derreteu o primeiro, ganhou um doce a segunda. Merecido.
À Tarantino. A impresão digital do realizador marcada e vincada desde a aurora do filme com um sublime diálogo de fazer arrepiar o mais empedernido, piscando o olho ao espectador, seduzindo-o logo no primeiro olhar, naquela ânsia enrolada de quem se interessa e quer saber, levando à certa e para a doce névoa da ignorância o interlocutor astuto para deixar no ar a iminência de poder vir a tomar o jogo nas mãos. Aquele ar morno de brisas, poliglota do "caçador" já por si valeria o preço do bilhete com pipocas incluídas no embrulho da sedução.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Luz intermitente guiará águia para a glória?

É verdade e não merece discussão que a goleada gorda- à moda antiga- num regresso esperado ao passado glorioso que alimenta ainda, tantos anos volvidos, o ego encarnado, faz renascer o sorriso e recuperar a vontade de ganhar e de gritar aos quatro ventos a plenos pulmões: "Sou do Benfica", que ultimamente tem sido confessado numa surdina quase muda. Manda a prudência num dos seus mandamentos que se recorde e com algum respeito a fase embrionária da época, ainda pouco rabiscada no terreno para deixar de ser projecto no estirador do técnico. Esta águia, promete, tem vontade, parece ter capital humano para se transformar numa certeza, mas a verdade é que um balde de água fria seria bem vindo agora, para caso as coisas não continuem no trilho certo, a paixão arrefeça e o toque de desmobilização tome conta dos seus indefectíveis. Objectivamente o Benfica fez o que lhe competia, está com pé e meio na fase de grupos da liga Europa, e no Campeonato esbarrou na falta de pontaria e nas luvas de um guarda-redes que transformou os acordes da vitória quase certa no bailinho do empate que comprometeu os três candidatos ao título, permitindo que o Braguinha respirasse solitário os ares da liderança. O leão medroso à imagem do que fez companhia a Judy Garland no "Feiticeiro de Oz", tolhido e de garras escondidas na choupana não resistiu ao voo mortal da borboleta roxa com ajuda de uma estranha mão russa que transforma num pesadelo a viagem à Florença de Dante e onde morou em tempos idos Rui Costa, e onde uma Helena Bohaman-Carter quis um dia ter "Um quarto com vista sobre a cidade". Nuvens carregadas na cidade do Arno para a continuidade entre os maiorais na Europa do vice-campeão luso. Grande Nacional, atropelou o Sporting e atingiu o seu Zénith com esta vitória amarga pelos golos que encaixou que tornam esta vitória num amargo de boca.
Exma sra dra Manuela Ferreira Leite;

O meu dever de eleitor interessado obriga-me a escrever-lhe esta carta. Não tem conta as vezes em que encostei o telefone ao ouvido direito e tentei falar-lhe para o seu call center. Duvidei da seriedade dos seus funcionários quando um após o outro, lá me juravam a pés juntos, de voz embargada, que não era possível falar consigo porque não trabalhava lá ninguém com esse nome. Não queira saber os impropérios que mentalmente usei para classificar esta situação inquietante para mim. Logo eu que pouco tempo concede à publicidade, olha de esguelha para os anúncios, tinha sido vítima de mais um logro. Acredito que a situação seja explicada devido ao medo de podermos ser escutados- não foi a senhora que disse um dia que o silêncio é de ouro?- uma preocupação ao que dizem já ter chegado a Belém a ponto de estar a deixar o nosso Presidente desorientado com aquilo que o Governo lhe anda a fazer. Ia acrescentar não é só a ele, mas ao país, mas podia correr o risco de ser mal interpretado e depois ter o dr Pacheco Pereira a falar de mim, o que não quero muito, por preservar e bem a minha individualidade... Não ligue muito ao dr Passos Coelho que ou muito me engano ou trilhará um caminho semelhante ao seu homónimo do PS, que ficou com orelhas tipo Dumbo e não à Bugs Bunny, esse coelho imortal que nos fazia rir, depois de se terem descoberto algumas roedelas nas urnas feitas por "ratinhos" estranhos ao la(r)go rosa. Meteu água e agora constrói pontes e estradas, caminhos de alcatrão e não só neste país de betão. Penso que nesta altura esteja a escrevinhar a folha A4 em que colocará todas as ideias para o seu programa eleitoral- uma formalidade chata, para entreter jornalistas e analistas, que passam por lá os olhos, enquanto o povo lá vai devorando os livros do Sousa Tavares e da Rebelo Pinto, entre uma sande e um mergulho, na toalha do desencanto, com as banhas à mostra. Desvantagens de um país de tanga... Confesse, quantas folhas rasgou? Quantas promessas encalharam no crivo da máquina da verdade em que se quer transformar? Se ler a Bíblia, acredito que encontrará a passagem em que Jesus Cristo se engasgou quando Pilatos, esse traquina que lavou as mãos (o que dá jeito agora com a gripe que prolifera pelo Mundo) na hora de o condenar) lhe perguntou a definição de verdade. Confesse que já se arrependeu dessa promessa, mas como diz um amigo meu, promessas leva-as o vento. Não perca a esperança de ver a rosa murchar e não florir nas urnas, o seu irmão, esse leão de gema pode ser-lhe útil nos conselhos que pode deixar, já que desespera há tantos anos por ser campeão e tem de se contentar com o insosso segundo lugar, uma posição que um treinador de futebol há muitos anos baptizou, com razão, de o primeiro dos últimos. Fiquei triste devo confessar com esse abrir de Porta(s) a uma possível coligação com o CDS, desse Conde de Abranhos, perdão Paulo Portas. Devo ter de inquirir o Pacheco Pereira, tão preocupado que está com o Preto que lhe como sabe é uma cor que nunca sai da moda mas desaconselhável por aquecer ainda mais em dias de Estio, e proibida na lista de cores dos estilistas.... imagino que deixará a cabeça a latejar nada que uma aspirina não resolva... Agora, tenho de a deixar, porque acredito que não tenha muito mais tempo para me dedicar. Espero que tudo lhe corra bem... Um forte abraço...

O telegrama e o canário

Não sei se muitos dos jornalistas conhecem- acredito que sim- esta história maravilhosa que Nélson Rodrigues, um dos maiores jornalistas desportivos do Brasil gostava de partilhar com os seus leitores. Vou contá-la porque a acho deliciosa, se não me levam a mal. Um repórter foi chamado para ir cobrir um incêndio. O jornalista nada vê de anormal, é um incêndio rotineiro, igual a tantos outros, as labaredas desfaziam bens pessoais, nada de significativo havia. Qualquer regador ou uma mangueira seria suficiente para matar as chamas. Volta o escriba desiludido para a redacção e abre a boca de espanto ao saber que o jornal dedicará uma página ao sucedido. Revolve os apontamentos, dá voltas à cabeça, e em desespero de causa, lá faz sair da sua imaginação para o papel um humilde canário que morre cantando. No dia seguinte, o país inteiro chorou em uníssono a perda do bicho. Cada vez mais me convenço que jornalismo necessita de alma e de sentimento e não daquele empedernido ar altivo esfingico do rigor numérico. Mas sempre respeitando quem escreve e para quem se escreve ou fala. Ate porque a maior resposta do jornalista é ser o olho clínico do receptor que quer estar no local, onde tudo acontece. Tem a bomba atómica que pode fulminar as carreiras jornalísticas: simplesmente basta deixar de o ler... E isso deve vir à tona, deve estar bem presente na mente de quem exerce a profissão...não trair a confiança ou a curiosidade de quem fica e se interessa por saber...