terça-feira, 28 de julho de 2009

O riso agudo em sonoridade estridente da cruel madrasta da Branca de Neve depois de a pobre rapariga ter mordido a metade da maçã carregada de veneno, denunciavam-lhe as intenções. Os arrepios soltos, metem medo mal a silhueta se avista. O papel de megera assenta-lhe como uma luva num vestido de cerimónia. Arranja o cabelo com a palma da mão à medida que se insinua em passo decidido, olhar melifluo e voz cantada. Por muito que tente, por muita maquilhagem que ouse colocar o seu visual ficará sempre o mesmo.

domingo, 26 de julho de 2009

o país virtuoso da inveja

À mesa do café, espremido entre o corpo alheio, sentado ou em pé, o país indevidamente roí-se de inveja. As unhas já são poucas, sobra cada vez menos carne para levar à boca. Aptidão demonstrada em certificado rubricado pela mão própria ou pelo punho bajulador de quem espera algo em troca, vandaliza a competência esquecendo-se de referir por vezes a falta dela, trazendo elogios descabidos à discussão. Quantas conversas marginais, especialistas na maledicência, que inventa qual professor Pardal, argumentos para que a promoção que foi parar ao colega do lado, um chato e que até não cumpre horários nos devia ter vindo ter às mãos; que a bela rapariga que se delicia na companhia de um rapaz saído de um catálogo de culturismo devia trocar connosco gestos românticos, que aquele inquieto Euromilhões era a nós que nos devia sair e não a outros, incultos e que não sabem o que fazer com tanto euro; que aquele carro belo e caro que passeia no asfalto ao nosso lado, roncando a sua força cavalar ao nosso lado devia estar na nossa garagem e não na do serôdio motorista de óculos fundo de garrafa e cabelo sedoso pela brilhantina? É um pouco assim que anda o país, a olhar ou a querer admirar o seu próprio umbigo em vez de tentar concertar aquilo que de mal tem e acontece.... Maldizer a sorte, profanar contra os azares que lhe acontecem não são remédio fácil para o curar...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A minha caixa de correio tinha ontem um postal de Narciso. Simpaticamente escrito, com uma letra desenhada- aproveito desde já para enviar os parabéns à professora primária-, aquele texto multiplicado por milhares de cidadãos tem lá uma parte que me deixou inquieto e a meditar. "Passámos muitos Natais juntos". Confesso que desconhecia ter partilhado o bacalhau, as couves, as batatas e os doces, com tão ilustre família. Uma rápida consulta familiar desmentiu esta ideia, uma artimanha da prosa para dar uma certa familiaridade e tentar aproximar candidato de eleitor. Uma simpatia política que só surgue quando o voto se aproxima, e confesso que me parece que os arquitectos de marketing e os autores dos discursos andam atacados por uma preguiça terrível. O calor dilata os corpos, apetece cada vez mais ser como a Deolinda que só fazia praia à sombra com medo de engordar...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Antes de os índios serem maus, gostava muito do general Custer. Um guerreiro fantástico, autor de massacres inúmeros aos índios sioux, que me enlevava pelo chapéu à cowboy e o bigode farfalhudo, e uma farda azul que fazia a inveja da minha pobre indumentaria. Tantas e tantas noites sonhei em ter uma fatiota daquelas e em puder empunhar a bandeira numa mão e a rédea do cavalo na outra. Nunca percebi muito bem como é que ele conseguia matar os índios, mas de alguma forma os abatia, ou não conseguiria ter a fama que teve. Eu, lá no meu quintal, ensaiei diversas vezes. Montado no tronco da vassoura, porque cavalos eram proibidos devido ao preço, treinava a pontaria à macieira do vizinho, que era um ranhoso. Um dia, a brincadeira acabou mal, porque danifiquei a horta que por lá havia e a semana que passei de castigo fez-me toldar a bravura e ganhar algum juízo. Um abalo profundo. Imagino que os soviéticos tenham sentido o mesmo quando viram os americanos espetarem uma bandeira com estrelinhas e riscos em solo lunar. Tentei convencer o meu primo Luís, que o feito se devia ao seu aniversário. Era no mesmo dia, é verdade, mas era difícil de acreditar que o caminho para o espaço se tenha aberto devido a um festejo de aniversário de um rapazito que tinha tirado uma porta a um frigorífico velho esquecido num recanto do quintal, para tentar rasgar as fronteiras espaciais. No meio do congelador ia um lenço, roubado à socapa da gaveta do meu tio com a palavra P, a rebentar de patriotismo. Era Portugal a mergulhar no nacionalismo, embora confesso, tivesse a atitude daquele velhote que Camões idealizou e cantou ao ver Vasco da Gama meter-se numa caravela e rumar até à Índia. Convenci-me que os americanos tem tudo. Um nadador fantástico, como houve poucos, o Mark Spitz que parecia que corria nas piscinas a cada braçada que dava- é certo que agora anda um australiano a maravilhar o Mundo, um autêntico tsunami que arrasa corações e adversários- ganhou ainda mais glória e não fosse este orgulho em ser português, acho que me tinha aventurado na lonjura do Atlântico e mudado para lá. Aqui há uns anos quando a poderosa América levou com aquele hediondo acto terrorista, o Mundo virou-se do avesso para lhe estender a mão, apontando o indicador bem firme a um Bin Laden, autor de uma chacina sem precedentes para levar a cabo uma guerra que de santa tem muito pouco. Aquela barbita e aquele turbante tem algo de comum com algumas figurinhas mais bem comportaditas deste nosso país. Terei de perguntar o paradeiro a esse autêntico génio da análise política internacional chamado Octávio Machado que afirmou a plenos pulmões saber onde andava, isto depois de ter deixado dois pontinhos na Luz...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ninguém no país é capaz de imaginar a força persuasora da cerveja e dos tremoços em simultâneo, que fucionam um pouco como os espinafres para o pobre do Popeye, marinheiro de água doce que fez algumas delícias nas tardes de canícula dos Verões da minha juventude. No café central, que funciona um pouco como o eixo do meu mundo, o meu grupo de amigos tentou convencer o Tó a desistir da ideia de deixar a nossa equipa de futebol de bairro. Não que fosse um daqueles jogadores de mão-cheia, dotado de uma técnica valerosa, mas era dos poucos que tinha sapatilhas, o único com uma avó rica, o que era fundamental e útil para comprar uma bola nova ou até em caso de derrota, para o pagamento do prémio ao adversário. Jogava-se a dinheiro e é fácil de perceber que nem sempre as coisas acabavam pacificamente. Muitos dos problemas e das disputas foram resolvidas com pontapés à karateka e bofetadas de mão aberta e com o cascalho que ali havia, e que era um poderoso auxiliar. Convencemos à custa de diplomacia, e de muitos litros de cerveja e de incontáveis pratos de tremoços o Tó a revalidar a fidelidade à nossa equipa. No dia seguinte, foi um problema, porque o acordo de cavalheiros tão difícil de alcançar parecia ter desaparecido por completo da memória do Tó. Saiu-nos caro, mas foi óptimo no futuro imediato.
Aqui há uns anos, um problema parecido foi resolvido com queijo. Mas tem um problema: comendo queijo esquece-se rapidamente. Palpita-me que foi por isso que Guterres, qual ratito maroto se esqueceu da sua paixão pela educação e de outras coisas mais que tinha prometido ao povo cansado da laranja e do seu sumo amargo. Campelo percebeu e defendeu a terra onde era autarca à custa de encher de queijos a dispensa da na altura segunda dama da nação, D. Catarina. Helena Roseta, parece-me um pouco como Guterres: esqueceu-se muito facilmente do quanto aborreceu o PS. Voltou as Costas- e juro que não é trocadilho...- e mal apanhou a rosa meia murcha e em sobressalto volta a estender-lhe a mão...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Antes desta histeria à volta da gripe que já foi suína, mexicana e que agora é A, o Mundo era mais feliz. A Branca de Neve pode ser beijada sem reticências pelo princípe, a Cinderela não estranhou quando a cara-metade sem pedir licença se aproximou e colou os lábios aos seus, e até a Bela- que talvez fosse a única que se safasse se vivesse agora, porque é quase uma heresia pensar no Monstro como um provável contagiado, tão solitário parece ser- não pensou duas vezes em consumar o seu amor correspondido. E fez bem, se me perguntam a opinião. Não sei se a Etelvina pensa o mesmo que eu. Ela, a pessoa em quem todos apostavam como candidata a santa, com altar quase pronto na basílica de S. Pedro, provou que afinal as aparências iludem. Nasceu para o amor naquela camioneta laranja estofada de roxo que levou grande parte da rua numa excursão demorada a Lourdes, numa estrada polvilhada de fé e de algum cepticismo, como o caso da Etelvina, que nunca acreditou em Deus, fosse ele quem fosse. O Macário, bombeiro nas horas vagas do emprego de marceneiro, um dos mais bem-parecidos solteiros das redondezas há muito que havia fixado aquele rosto sardento e onde brilhavam dois olhos negros como ébano e cujos lábios rosados faziam a delícia de todos quantos lhe ofereciam motivos para ela os abrir, num sorriso meigo e palavras delicadas. O destino caprichou e juntou-os, obrigou-os a partilhar a merenda e mais do que isso, meses mais tarde, dividiu entre ambos a gestão de um T3 mobilado do melhor, dispensando os catálogos que se atulham lá por casa de IKEAS e similares. Naquele passeio, não tiraram as mãos um do outro, como se fossem parte de um laço que depois prolongaram com votos escutados pela rua e arredores. Ainda hoje são a imagem do casal feliz, alimentada pelo nascimento de 3 filhos, todos em escadinha, a quem ensinaram a lavar sempre as mãozinhas, pelo menos antes das refeições e sempre que chegassem a casa, e a beijar o menos possível, mantendo distâncias...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O sonho renovado. A legitimidade perdida e derretida pelos traiçoeiros destinos impostos pela perícia ou falta dela nos toques, afagos, ou meros pontapés sensaborões, num pedaço de couro que leva a plateia ao rubro e uma tribo inclemente ao êxtase ou à transe de uma depressão mal curada. Qual injecção de optimisto bombeada por todo o corpo, esquece-se o passado menos feliz, as vezes em que não segurámos na porta do elevador à menina do 5º esquerdo, os dias em que de cara enrugada e impropérios a baloiçar na ponta da língua, servimos destemperos aos colegas de escritório, para voltarmos a sonhar. Nas asas do optimismo, à boleia das capas sorridentes, dos presidentes felizes e jogadores maravilhados, num beco do país das maravilhas, que se a sorte não se aliar à vontade, reconvoca os insitintos assassinos da rainha de Copas, exigindo sumariamente a cabeça a quem esbraceja para dentro do relvado: o treinador, o elo mais fraco de toda a cadeia, mesmo que não lhe seja permitida a honra de chutar as bolas durante a hora e meia de paixão, volta-se a sonhar, tatua-se a palavra campeões, enquanto torramos no sol do Verão, ou nadamos na praia, e entre um por-do-sol regado pela bebida ou uma partida de sueca, lá voltámos a conversar sobre o clube que nos preenche o coração, os reforços que podem ajudar, aqueles que julgámos não sentir a tristeza do adeus, mergulhando na falível previsão dos 8 meses que vem ai. Vestimos a pele do astrólogo, o tal que tantas vezes satirizamos ao vê-lo, com ar de profeta das virtudes, na televisão, dizer umas coisinhas que nada têm de verdadeiro....

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Lá de longe, muito distante, D. Birgolina jurava a pés juntos em gritos tísicos que havia várias traições conjugais na rua. Sempre que por perto dela passavam, erguia os dois indicadores descaía-os à altura da orelha, flectindo-os para a frente, acompanhando a expressão visual com palavreado menos conveniente a ouvidos menores, como os nossos, que aproveitávamos os caixotes da fruta para fazerem de postes nos nossos jogos de futebol quase sempre jogado em sarapilheira. por uma questão de nobreza, justificava e repetia D. Birgolina. De modo a que todo o Mundo soubesse que a fidelidade do casamento não estava a ser levado muito ao pé da letra pelo menos para que o infiel soubesse que a facadinha matrimonial estava já a ser descoberta, num aviso para optar por outra estratégia, que podia passar por encontros em moteis, ou em casas de amigos. Não havia patranha que escapasse aos olhos sábios da vendedora de fruta que orgulhosamente tinha a quarta classe e era solteira. Não sei se na vida de Manuel Pinho houve alguma D. Birgolina, ou se o até ontem ministro da Economia quis insinuar alguma coisa sobre a vida conjugal ou extra, é melhor escrever assim do deputado Bernardino Soares, que alegadamente chamou mentiroso a quem tutelava a pasta da Economia. Um insulto gravíssimo, ofensivo, ouvido tantas vezes no trânsito e não só, tirou Pinho do sério. Imagino que quando passeava pela feira de calçado em Milão, tenha feito algo parecido ou dito ao ver que afinal os sapatinhos portugueses são mais bonitos e até confortáveis que os italianos, com que queria percorrer em passadas longas os corredores do Ministério ou de lá de casa; pelos vistos de nada valeu a ajuda do consultor de marketing que contratou há cerca de dois aninhos, incapaz foi de maquilhar alguma pouca habilidade para a política, num jeito que me faz lembrar o seu ex-colega de governo Correia de Campos, incapaz de perceber que às vezes o silêncio é de ouro, ou se quiserem de platina. E já agora, as mãos também comunicam, senhor ex-ministro... A mim pareceu-me foi que quando no Verão passado esteve com Micheal Phelps em Vilamoura lhe perguntou como podia ir ao fundo....

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Todos os anos, o ritual tinha a solenidade de uma oração. Naquela folhinha azul de 25 linhas tínhamos de escrever o que achámos dos professores, das aulas e da escola, num exercício que contemplava ainda a escrita da classificação final que nos atribuíamos a nós mesmos, num exercício difícil se não fosse feito com a displicência de quem não o levava a sério. Teve dias que considerei aquilo um autêntico absurdo, que estava a fazer o trabalho dos professores. Era como se me pedissem que escrevesse o enunciado do teste, o resolvesse e depois pegasse na caneta encarnada para o classificar. Com o correr do tempo, achei graça e encarei o desafio como uma proposta de negociação entre o aluno e o professor. Escreveria a verdade e pediria a nota que achasse mais justa face ao desempenho que obtive no período académico. É um pouco como o político e a campanha eleitoral, com a agravante de poder levar chocolates ou flores ao professor, num acto a que lá em casa nunca acharam grande piada por considerarem susceptível de algum suborno. Hoje, senti-me como um aluno ao ver o debate da Nação, que mostrou a habilidade manual de Manuel Pinho, esse político não profissional que fez um gesto feio a uma bancada parlamentar com quem estava a trocar umas palavras pouco correctas, demonstrando uma rara habilidade de manejo dos indicadores, que por várias vezes já o haviam traído. Na altura, pareceu-me que o gesto se devesse à tentativa do ex-ministro da economia de convidar para uma tourada, mas rapidamente fui demovido dessa conclusão ao ouvir a insistência dos colegas de profissão que durante o resto do debate só falaram nisso. Não sei honestamente como classificar este debate, que antes já tinha visto a reprimenda do mestre-escola Jaime Gama a Paulo Rangel e ao inefável ministro Santos Silva... Não gostei também de ver o vestido da deputada Apolónia...