quinta-feira, 4 de junho de 2009
O dia dos horrores
A raiva misturada com a amargura, polvilhada com a decepção da vida que nem sempre nos corre bem, o instinto e o medo de criança gaulês que polvilhava as histórias do Asterix e nos desenhava o sorriso de escárnio na boca ao dedilhar as páginas das aventuras: como se fosse possível que o céu nos caia em cima da cabeça. Pressentimentos, sexto-sentido, coisas que acontecem e não se explicam nas teorias racionais da vida. Desde o início que o dia não me correu bem. Acordei cedo, ao raiar da aurora já tinha ouvido a minha alvorada mecânica. Banho despachado, dentes lavados, barba ralada da cara, e pronto para o novo dia. É a rotina mecânica do início do dia. Espreitei a janela. Um céu cor de chumbo, pesado, transtornou-me ainda mais o espírito. Ameaça de chuva a pairar no tecto aberto, dependente dos humores de S. Pedro. Ponho o pé na rua, apalpo o bolso e nada de telemóvel. Esquecido na mesinha de cabeceira, tão silencioso que não me lembrara dele. Voltar atrás, fora de questão. O reencontro teria de esperar e era a forma de marcar tambêm uma mudança nos hábitos impostos pela ditadura do estar sempre contactável. Confesso que fiquei inquieto, o sangue corria a uma velocidade supersónica, bombardeando sem clemência o espírito em rajada com notícias de que menos esperamos. Raramente passeio de mão dada com o telemóvel, nunca trocámos um abraço, temos uma relação mais recatada, mas íntima de conhecermos os nossos limites e de em caso de necessidade podermos contar um com o outro. Às vezes, sou benevolente demais com o seu piar irritante e constante que não nos deixa descansar. Distraído nos meus pensamentos, entro no autocarro. Não lhe olho para o número. Vai deslizando pelo alcatrão na cidade, lentamente, parando de dois em dois minutos, fazendo desaguar dezenas de pessoas e abrindo as portas a outras tantas que como eu tem pressa para chegar. Vou submerso nos transtornos, nas olheiras que não me largam, e que me fazem ser membro honorário do clube dos mortos-vivos, olho de relance para a janela. Bolas! Não era aqui! Enganei-me no autocarro. A cidade atravessada sem necessidade para a ponta por onde não queria passar. Não tenho outra solução senão sair, procurar a carreira certa que me leve ao meu destino. Queria abraçar o mar e vejo olhos nos olhos com o betão armado e os prédios altos cosmopolitas... E sem poder avisar sem ser em sinais de fumo que ia chegar atrasado...
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