Nunca terá perdão o ranhoso do automobilista que, há uns anos, levou na frente do carro a bola de borracha preta, única na zona, que comprei na Alemanha e que pinchava tanto, tanto que galgou o portão de ferro da rampa onde fazíamos os jogos fantásticos , principalmente os Portugal-Espanha, armados até aos dentes de orgulho lusitano, valorosos descendentes de D. Nuno Álvares Pereira que despachou os espanhóis em Aljubarrota com a táctica perfeita do quadrado, por isso fosse como fosse, os espanhóis tinham sempre que perder. Era uma questão de honra e de patriotismo. Também foi azar. Passava um carro de cada vez, muito de longe a longe, e tinha que ser dessa vez, a bola a pinchar para lá do portão e o carro a levá-la na frente, um poc-poc muito seco, da bola trilhada entre o guarda-lamas e a roda de trás. Aquela era a rua central de Leça, onde ainda não havia as chaminés da Sacor e entre ali e o mar impunha-se um arvoredo imenso impenetrável em alguns casos, a pessoas mais sensíveis. Acho que até se conseguia ouvir o respirar do outro lado da terra, onde começava Matosinhos. A Sacor entrou pela infância dentro e levou-nos o espaço de pousio para as nossas brincadeiras de índios, substituindo os maus por outros, mais reais, e que dificilmente sucumbiriam aos tiros de espingarda de paus trabalhados a canivete. Imagino que Narciso Miranda nunca os tenha ouvido. Devia andar de calção à italiana, laçinho- parecia o Zé Maria a sair da casa do Big Brother- pelas ruas de Barroselas a perguntar-se como chegaria a ser alcaide.
Um dia, chegou o 25 de Abril, as eleições, o poder autárquico, a que Narciso haveria de chegar, quando ainda era funcionário da EFACEC. Com mérito e bem apoiado por um partido que pintou o país, primeiro de vermelho, depois de rosa, e agora de um rosa falido de brilho, quase a desmaiar para o laranja. Os matosinhenenses habituaram-se a elogiar-lhe a tenacidade e perdoaram-lhe aquele intervalo em Lisboa, onde aliás não se deu muito bem com as obras do Terreiro do Paço, ainda que por lá haja buracos remendados, que nunca atingem as suspensões dos carros dos autarcas( os autarcas sabem sempre onde estão os buracos, vantagem em relação aos munícipes), que já tem o cotovelo sem feridas depois daquela queda que Gomes, o seu (Gas)par e um Coelho protector o obrigaram a dar, naquele dia em que caiu também a ponte de Entre-os-Rios.
Narciso tem direito a uma vaidadezinha, é verdade. Fica-lhe mal é tentar levar à letra o seu nome de baptismo e as características lendárias. O seu amor não correspondido pelo Porto é ainda mal assumido e digerido por alguns dos cidadãos, e era bom lembrar-se como acabou o Narciso da lenda...
Um comentário:
Ah o que eu gosto de d. nuno alvares pereira quase que nem tem explicação.
Não que eu seja asim muito dada a santos, não.Aquio que eu gosto nele é da coragem , da intrepidez , da capacidade de estratega capaz de zurzir uma data de espanhois e de lhes dar uma lição que perdura até aos dias de hoje, com ou sem a intervenção divina que isso já são outras estórias e eu, com a transcêndencia alheia não me meto.
Mas como ia dizendo gosto muito dele e da sua obra apesar de no seu tempo muitos haverem neste país que muitos nomes lhe chamaram e que nem sequer o consideravam digno de frequentar o paço del el rei; mas bolas essa também é outra estória;).
Quanto ao que escreves gostei,que eu como sabes gosto muto do teu estilo.E fizeste-me saudades do norte carago e da minha infância que também por ali ficou alguma.
Da sacor e já não me lembro mas eu de sitios com gasolina gosto menos, por isso não me posso pronunciar; já de Narciso mirando gosto um bocadinho mais pelo que conheço do que diz e do que fez , partidarismos áparte que eu não sou pessoa para me deixar dominar por isso;).....
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