quarta-feira, 10 de junho de 2009

Gosto de escrever este nome-Portugal. Contaram-me, porque ainda não tinha visto a luz do mundo, de lá em casa ter havido uma festa enorme com direito a jantar melhorado quando os Magriços ficaram com o bronze no mundial de Inglaterra, onde como sabem não faz muito sol. Mas a Inglaterra era a poderosa Inglaterra dona de muitos barcos e que fez de muitos corsários os heróis da banda desenhada. O Kansas Kid, o Bufalo Bill, o Mandrake, o Fantasma eram leituras obrigatórias, o Asterix e o seu bigodinho valente era proibido- não sei se era pelo preço, ou se a história não agradava e o medo que o céu caísse em cima da cabeça não seduzia o dono do capital, ou seja aquele que decidia as leituras que tínhamos. Ainda mal sabia o significado das letras no balão de cada quadradinho, porque juntá-las dava muito trabalhinho a uma cabeça mais voltada para a brincadeira, deliciava-me com a acção. Uma vez de tão entretido que estava a ver as figurinhas entrei de rompante na sala de aula, sentei-me sem dizer bom dia ao senhor presidente do Conselho, cuja importância devia ser enorme, porque dos 25 alunos que partilhavam aquela sala mais a professora, e ele que nem lá estava, era o único com direito a um retrato enorme. Claro que aquilo me intrigava. Uma vez empertiguei-me e tentei saber a se justificação para tal fotografia se devia a tentar disfarçar alguma fenda na parede branca. Recebi um "ele está em todo o lado", como resposta. Calei-me e nunca mais voltei a falar no assunto na sala. O conflito foi terrível na manhã de domingo seguinte, na catequese, quando a menina Rosa, nos explicava que Deus estava em todo o lado. Engoli em seco a vontade de perguntar se Deus e Salazar eram a mesma pessoa, mas pelos dados da catequista não havia a menor dúvida que Deus, pelo menos não era tão vaidoso ao ponto de ter um retrato seu na parede da escola. Achei por bem tentar desfazer o dilema em casa. Percebi que Salazar era um homem de carne e osso, mandava no país, no Ultramar distante onde se combatiam os "turras"; Deus mandava no coração das pessoas e tinha construído o Mundo em seis dias.
Vá lá! Não concordei muito com este Mundo. O Lourenço levava porrada porque ia descalço; o Hugo pagava com reguadas o desleixo nos cadernos; o Joaquim era proscrito da equipa de futebol porque na hora de rematar sentia pena do guarda-redes contrário. Eram os mesmos sempre que eram cortejados pela Tininha e pela Elisabete, os dois borrachos da turma, e os pobres assim o determinavam os professores, deviam ser os mais burros.
Desconhecia, então, que havia pessoas com coragem e que sabiam, que os pobres nem sempre seriam os mais burros. Alguns desses corajosos ajudaram a pintar um Abril com a tonalidade de esperança. Portugal abriu o sorriso e a andar mais feliz. Deixou de ter apenas o Eusébio e o Benfica para se entreter. Os sítios onde nem passavam carros de bois conheceram novas vias de comunicação e as pessoas começaram a ficar mais próximas umas das outras...

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