A última vez que escrevi uma carta assim recebi em troca uma grande decepção. Deve lembrar-se daqueles papeis perfumados a alfazema pautados de cor roxa que em baixo tinham vários desenhos de corações. Com a ingenuidade de 8 anos a falar mais alto, rabisquei o melhor que sabia um deles: "Queres namurar comigo?", assim mesmo, com o erro ortográfico saliente em cima dos dois quadradinhos feitos a régua com o espaço suficiente para se colocar a opção certa, ao lado da resposta: sim/não. Enchi-me de coragem e deslizei o papel dobrado impecavelmente para a carteira da Tininha. No intervalo recebi a resposta: "a minha mãe diz que somus muito novus", com uma letra impecavelmente desenhada que fazia corar de inveja a minha caligrafia que sempre teve tanto de indecifrável, mesmo para mim. Não queira saber o quanto chorei nos dias a seguir, emagreci é verdade, parecia-me ainda mais com um palito ambulante, mais osso que pele. Nunca compreendi muito bem este não, apesar de lá em casa me terem tentado explicar pacientemente que há ganhar e perder, e das virtudes de esperar. Imagino que o sr. actualmente não tenha estes problemas, ainda saboreia aquela vitória que deu azias a quem faz sondagens e aos moradores do largo do Rato, nas Europeias, que o vão levar para longe de nós durante alguns dias, para essa Europa que muitos defendem mas que em rigor poucos percebem muito bem para que serve. Livrá-lo-emos também desses debates quinzenais com o Primeiro-Ministro, onde o ouvimos várias vezes ressuscitar a figura do 2 caras, que confesso, já me cansa um bocadinho. Primeiro porque era um chato nos livros do Batman que devorei enquanto criança e em segundo lugar de tão repetido o sound byte já se torna enfadonho. O mais importante é que olho para a cara de Sócrates e não a vejo mudada. O nariz continua o mesmo, o tal que alguns consideram poder rivalizar com o do Pinóquio, o cabelinho cada vez mais branco, e tirando alguns quilinhos a menos não consigo encontrar grandes diferenças no chefe do governo. Talvez sejam coisas minhas. Tambem não compreendi muito bem, se já algum dia leu o Conde d'Abranhos do Eça. Se nunca o fez, diga-me que o trago de casa e tenho todo o prazer em o emprestar. Há de por lá encontrar alguns amigos seus, embora acredite que já tenha devorado o livro, que o senhor é todo dado a leituras. Sei que ficou zangadito com esse eterno trepador de coqueiros chamado Cavaco Silva, que não vos fez a vontade de juntar as eleições de autarquia com as legislativas, em nome da contenção de custos. Mas peço-lhe que o perceba. Afinal de contas, poderia dar azo a que os comentadores andassem uma semana inteira a criticar o nosso Presidente por ter ido a reboque de uma ideia do partido do coração, e em Belém, os corações tem de ficar bem longe, que o diga o ex-presidente Sampaio... Espero que lá por Estrasburgo não abuse na papa Maiezena, essa traquinice do ministro Pinho, que de forma subtil lhe quis chamar gordinho e algo para o baixinho. Teve piada, tem de reconhecer, embora tenha sido algo brejeiro no modo como falou de si. Mas não ligue. Também não sei se o ouviu, imagino que não. Palpita-me que muda de canal sempre que alguém do partido rosa fala ou o dr. Passos Coelho, que qualquer dia vira Dumbo tamanhas desconsiderações andam a dizer nas suas- dele- orelhas. Oxalá não tenha levado a mal a ousadia desta carta, um abraço forte
domingo, 28 de junho de 2009
terça-feira, 23 de junho de 2009
Nunca terá perdão o ranhoso do automobilista que, há uns anos, levou na frente do carro a bola de borracha preta, única na zona, que comprei na Alemanha e que pinchava tanto, tanto que galgou o portão de ferro da rampa onde fazíamos os jogos fantásticos , principalmente os Portugal-Espanha, armados até aos dentes de orgulho lusitano, valorosos descendentes de D. Nuno Álvares Pereira que despachou os espanhóis em Aljubarrota com a táctica perfeita do quadrado, por isso fosse como fosse, os espanhóis tinham sempre que perder. Era uma questão de honra e de patriotismo. Também foi azar. Passava um carro de cada vez, muito de longe a longe, e tinha que ser dessa vez, a bola a pinchar para lá do portão e o carro a levá-la na frente, um poc-poc muito seco, da bola trilhada entre o guarda-lamas e a roda de trás. Aquela era a rua central de Leça, onde ainda não havia as chaminés da Sacor e entre ali e o mar impunha-se um arvoredo imenso impenetrável em alguns casos, a pessoas mais sensíveis. Acho que até se conseguia ouvir o respirar do outro lado da terra, onde começava Matosinhos. A Sacor entrou pela infância dentro e levou-nos o espaço de pousio para as nossas brincadeiras de índios, substituindo os maus por outros, mais reais, e que dificilmente sucumbiriam aos tiros de espingarda de paus trabalhados a canivete. Imagino que Narciso Miranda nunca os tenha ouvido. Devia andar de calção à italiana, laçinho- parecia o Zé Maria a sair da casa do Big Brother- pelas ruas de Barroselas a perguntar-se como chegaria a ser alcaide.
Um dia, chegou o 25 de Abril, as eleições, o poder autárquico, a que Narciso haveria de chegar, quando ainda era funcionário da EFACEC. Com mérito e bem apoiado por um partido que pintou o país, primeiro de vermelho, depois de rosa, e agora de um rosa falido de brilho, quase a desmaiar para o laranja. Os matosinhenenses habituaram-se a elogiar-lhe a tenacidade e perdoaram-lhe aquele intervalo em Lisboa, onde aliás não se deu muito bem com as obras do Terreiro do Paço, ainda que por lá haja buracos remendados, que nunca atingem as suspensões dos carros dos autarcas( os autarcas sabem sempre onde estão os buracos, vantagem em relação aos munícipes), que já tem o cotovelo sem feridas depois daquela queda que Gomes, o seu (Gas)par e um Coelho protector o obrigaram a dar, naquele dia em que caiu também a ponte de Entre-os-Rios.
Narciso tem direito a uma vaidadezinha, é verdade. Fica-lhe mal é tentar levar à letra o seu nome de baptismo e as características lendárias. O seu amor não correspondido pelo Porto é ainda mal assumido e digerido por alguns dos cidadãos, e era bom lembrar-se como acabou o Narciso da lenda...
terça-feira, 16 de junho de 2009
Bla, bla, bla, que assim está em muitos balões dos livros do Tio Patinhas, inspirador de alguns dos magnatas do nosso reino à beira-mar plantado. Que os há, e basta vê-los nas revistas que se dedicam ao jet qualquer coisa nacional, com aqueles sorrisos que se vêem nas fotos, ficamos todos com a ideia de que os fotógrafos são rapazes cheios de piada. Sei por experiência própria, porque conheço alguns deles que não é bem assim, que raramente contam uma anedota, e que portanto as nossas excelsas figuras riem ou sorriem na esperança de que algum dentista veja aquelas dentições e num acto de caridade ofereça um branqueamento ou tratamento gratuito das cáries, de modo a que as bocas importantes estejam um primor na hora de enfrentar as objectivas. Bem sei que todos temos a liberdade de sorrir para onde e para quem bem queremos, aliás se não houvesse liberdade, o Saramago era obrigado a pontuar os livrinhos como deve ser, como lhe ensinaram na escola, e não dar aquelas dores de cabeça aos meninos e meninas que hoje de manhã se entreteram com um exame de Português que até era fácil. Não sei se a reunião de ontem do PS fez rir José Sócrates ou se o nosso primeiro teve de manter o ar cincuspectro de quem não percebeu muito bem se foi o povo na urna ou no quente do seu lar quem derrotou o candidato que mais parecia o Gepeto do Pinóquio, um bonequinho que desde cedo quis largar os fios e ganhar vida própria e foi o que se viu. Talvez, agora seja necessário, voltar a pensar na estratégia, em voltar a ouvir os discursos do Presidente da República que lá voltou a tocar nos espinhos da rosa, para que o povo acredite novamente. Insistir na maioria, por muitos sorrisos que se trabalhem não pode chegar... E prometer aquilo que não pode cumprir, pode ser fatal para essa estratégia de vitimização que trocou alguns nomes nas coordenações, como se algumas chicotadas psicológicas garantissem pontos neste caso votos...
Estamos excitadíssimos, caro Luís Filipe Vieira. Aqui na pensão já tínhamos combinado fazer um magusto pelo S. João- compreenda a originalidade da coisa, o país afinal também é fértil em originalidades- e resolvemos antecipá-lo para ontem. É certo que deixámos de ouvir por algumas horitas a teoria enfadonha do dr. Constâncio sobre a estabilidade do sistema, creio que ele não nos levará a mal, nem o dr. Nuno Melo, esse paladino da palavra que gastou uma fortuna em malas nos chineses, pode opor-se a esta nossa singela celebração. Afinal de contas, vejo que é um homem de palavra. Disse que iria consultar a família e fê-lo, numa rara demosntração de ternura familiar que nos tempos que correm nos obrigam a elogiá-lo. Não sei se é por ver concretizado o desejo mais permente de qualquer bom cristão- que sonha como sabe em ter Jesus consigo- que não levo a mal aquela traquinice de reduzir o tempo para a oposição se organizar. Sabe como eu que ser candidato não é decisão que se tome em dois dias, que é preciso tempo, para alugar o avião, o que é difícil nestes dias de crise, mesmo para quem é director de um canal de televisão, e outros falam muito mas depois na hora de agir deixam a missão para outros. É sempre assim. A acomodação faz das suas. Confesso-lhe que estamos excitadíssimos. Que decida renovar a candidatura a mais alto Magistrado da Nação futebolistica nacional (pelo número de adeptos, óbviamente...) gosto de escrever isto do mais "alto" para provocar aqueles que dizem que o caro presidente fica assim algo para o baixinho ao lado do Pinto da Costa, um rapaz com jeito para a ironia e para a poesia, como bem sabe e que palpita-me deve estar já a combinar com o dr Bettencourt a melhor maneira de decidir qual dos dois será campeão...
Desculpe não o termos convidado para o nosso magusto, mas compreende de Lisboa ao Porto ainda vai um tirinho enorme... e a fome já apertava...
A outra Paris
Ontem, e por mais de três vezes, o telefone tocou. Alarmado, preocupado com o facto de ser um dos poucos escribas deste reino que ainda não se havia referido a essa transferência multi milionária que colocou o actual melhor jogador de futebol do Mundo em Madrid, longe dessa velha Albion onde chove quase todos os dias e tão perto dessa praça de Cibeles onde faz um calor tórrido. Um assunto confesso que me deixa completamente indiferente nunca gostei de ver impregnado em mim esse vício tão portuguesinho de espreitar com os binóculos pelo ferrolho vizinho. Bem como os amassos que terá dado nessa Paris Hilton, a herdeira platinada de um Império. Para mim ,Paris é sinónimo apenas e só da capital de França. A cidade do amor, onde pelas suas ruelas íngremes ou na imponência dos Campos Elísios, um tal de Jean Valejean lutou contra o seu futuro miserável; o corcunda Quasimodo piscou o olho à cigana Esmeralda, ou o rebelde D'Artagnan perdeu-se de amores pelos encantos da doce Constance.
Paris que nos olha de cima e de esguelha do topo da sua imponente torre de ferro, que se banha no Sena, que tem o encanto dos seus quartiers floridos e o romantismo dos bateau mouche dos enamorados visitantes que cortejam os jardins, os monumentos ou os passeios de mãos dadas segurando as sombrinhas de cores desmaiadas, abre as portas de Versailles, onde viveram os delírios de um rei que até se achou o sol, e de um outro que saiu dali para a tenebrosa Bastilha acabando por ficar sem cabeça, tão desgovernado deixou o reino de Luises e de cardeais numa comunhão perfeita de querer e poder, que Napoleão tentou anos mais tardes ensinar a cartilha a um Mundo cada vez menos absolutista. Com a vénia ao senhor Victor Hugo, invejo o Gavroche, o menino pé-descalço que vagabundeava pelas ruelas e becos de Paris à procura da sobrevivência. Apetecia-me tambêm a mim respirar a brisa cálida da cidade nesta jovem manhã de Junho. Não se devem preocupar. É que há algo em Paris que desperta a minha sensibilidade de vidro, mesmo que não goste das pirâmides do Louvre. O Boggart deve ter razão quando disse à Bergman no "Casablanca": "teremos sempre Paris"... Acrescento eu ainda bem... O mesmo aposto não pode dizer o Ronaldo...
sábado, 13 de junho de 2009
Ai Jesus... é preciso sofrer tanto?
Os votos de amor eterno, jurados e benzidos pelo padre já parecem pertencer ao passado não muito distante em que para a posteridade exibiam o sorriso próprio dos felizes. Pareciam talhados um para o outro. Para no bem e no mal, na saúde e na doença, Braga e Jorge Jesus se apoiarem e ampararem. O treinador, devoto da cidade e do clube que ganhou projecção europeia de encantador de uma serpente que sibilava bom futebol e o Braga, agradecido, grato pelo futebol que brotava dos pés dos seus jogadores, que maravilhou a Europa. Mas o aceno da Luz, cortejado às escondidas, com mensagens sibilinas no telemóvel ou nas páginas dos jornais azedou o romance. Condenou-o a um fracasso, que os próximos dias se encarregarão de confirmar. As malas, já Jesus as tirou do sótão, já as fez e tem o cartão de embarque bem visível: Destino Lisboa, a capital dos sonhos, das quimeras do velho império. Um chamamento que não podia falhar. Uma marca no seu percurso de treinador. De apito ao peito comandar a águia na sua ressurreição nacional e quem sabe internacional, depois de se ter provado a veracidade do adágio que desaconselha treinadores espanhóis. Agora, preso pelos valores da indeminação, Jesus prova e faz saber que não é feliz em Braga. Roi a impaciência, tenta convencer, Salvador, o presidente a deixá-lo partir, mas esbarra na teimosia do "sogro" cioso do que é seu por direito...
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Gosto de escrever este nome-Portugal. Contaram-me, porque ainda não tinha visto a luz do mundo, de lá em casa ter havido uma festa enorme com direito a jantar melhorado quando os Magriços ficaram com o bronze no mundial de Inglaterra, onde como sabem não faz muito sol. Mas a Inglaterra era a poderosa Inglaterra dona de muitos barcos e que fez de muitos corsários os heróis da banda desenhada. O Kansas Kid, o Bufalo Bill, o Mandrake, o Fantasma eram leituras obrigatórias, o Asterix e o seu bigodinho valente era proibido- não sei se era pelo preço, ou se a história não agradava e o medo que o céu caísse em cima da cabeça não seduzia o dono do capital, ou seja aquele que decidia as leituras que tínhamos. Ainda mal sabia o significado das letras no balão de cada quadradinho, porque juntá-las dava muito trabalhinho a uma cabeça mais voltada para a brincadeira, deliciava-me com a acção. Uma vez de tão entretido que estava a ver as figurinhas entrei de rompante na sala de aula, sentei-me sem dizer bom dia ao senhor presidente do Conselho, cuja importância devia ser enorme, porque dos 25 alunos que partilhavam aquela sala mais a professora, e ele que nem lá estava, era o único com direito a um retrato enorme. Claro que aquilo me intrigava. Uma vez empertiguei-me e tentei saber a se justificação para tal fotografia se devia a tentar disfarçar alguma fenda na parede branca. Recebi um "ele está em todo o lado", como resposta. Calei-me e nunca mais voltei a falar no assunto na sala. O conflito foi terrível na manhã de domingo seguinte, na catequese, quando a menina Rosa, nos explicava que Deus estava em todo o lado. Engoli em seco a vontade de perguntar se Deus e Salazar eram a mesma pessoa, mas pelos dados da catequista não havia a menor dúvida que Deus, pelo menos não era tão vaidoso ao ponto de ter um retrato seu na parede da escola. Achei por bem tentar desfazer o dilema em casa. Percebi que Salazar era um homem de carne e osso, mandava no país, no Ultramar distante onde se combatiam os "turras"; Deus mandava no coração das pessoas e tinha construído o Mundo em seis dias.
Vá lá! Não concordei muito com este Mundo. O Lourenço levava porrada porque ia descalço; o Hugo pagava com reguadas o desleixo nos cadernos; o Joaquim era proscrito da equipa de futebol porque na hora de rematar sentia pena do guarda-redes contrário. Eram os mesmos sempre que eram cortejados pela Tininha e pela Elisabete, os dois borrachos da turma, e os pobres assim o determinavam os professores, deviam ser os mais burros.
Desconhecia, então, que havia pessoas com coragem e que sabiam, que os pobres nem sempre seriam os mais burros. Alguns desses corajosos ajudaram a pintar um Abril com a tonalidade de esperança. Portugal abriu o sorriso e a andar mais feliz. Deixou de ter apenas o Eusébio e o Benfica para se entreter. Os sítios onde nem passavam carros de bois conheceram novas vias de comunicação e as pessoas começaram a ficar mais próximas umas das outras...
Vá lá! Não concordei muito com este Mundo. O Lourenço levava porrada porque ia descalço; o Hugo pagava com reguadas o desleixo nos cadernos; o Joaquim era proscrito da equipa de futebol porque na hora de rematar sentia pena do guarda-redes contrário. Eram os mesmos sempre que eram cortejados pela Tininha e pela Elisabete, os dois borrachos da turma, e os pobres assim o determinavam os professores, deviam ser os mais burros.
Desconhecia, então, que havia pessoas com coragem e que sabiam, que os pobres nem sempre seriam os mais burros. Alguns desses corajosos ajudaram a pintar um Abril com a tonalidade de esperança. Portugal abriu o sorriso e a andar mais feliz. Deixou de ter apenas o Eusébio e o Benfica para se entreter. Os sítios onde nem passavam carros de bois conheceram novas vias de comunicação e as pessoas começaram a ficar mais próximas umas das outras...
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Adeus, Rosinha
Nunca gostei de rosas. Assim sem maiúscula, porque não se trata de nome próprio, mas sim da flor. Acho desactualizada e própria de amantes sem imaginação a oferta à pessoa amada acompanhada de palavras lânguidas e de sentimentos confessados ou partilhados. Seja amarela, encarnada, branca ou cor de champanhe, repleta dos seus múltiplos significados que ontem alguns políticos tentaram desvalorizar ao ver no tempo do manjerico e das cerejas o seu perfume esvair-se e a fragância a laranja- um cheiro incomodativo para as mãos- tomar conta do país, num claro sinal de que os ciclos são efêmeros. Leva tempo a aprender, esta lição clássica da política, ao ver Vital e Socrates no palco naquele palanque com um ar carrancudo, mas com palavras onde sibilinamente detectei alguns indícios de mau perder, dei por mim a pensar que nem nos pesadelos mais amargos previram a possibilidade de a derrota ser tão expressiva. Talvez nem sequer tenham rabiscado na véspera enquanto o país reflectia um discurso tão pouco simpático. De nada serve apregoarem aos quatro ventos que ambos perderam, que fizeram asneira, um na escolha o outro na campanha, porque o sentimento que foi visível foi um mero lavar de mãos, estilo o povo decidiu, mas a importância destas eleições não nos faz perder o sono...
quinta-feira, 4 de junho de 2009
O dia dos horrores
A raiva misturada com a amargura, polvilhada com a decepção da vida que nem sempre nos corre bem, o instinto e o medo de criança gaulês que polvilhava as histórias do Asterix e nos desenhava o sorriso de escárnio na boca ao dedilhar as páginas das aventuras: como se fosse possível que o céu nos caia em cima da cabeça. Pressentimentos, sexto-sentido, coisas que acontecem e não se explicam nas teorias racionais da vida. Desde o início que o dia não me correu bem. Acordei cedo, ao raiar da aurora já tinha ouvido a minha alvorada mecânica. Banho despachado, dentes lavados, barba ralada da cara, e pronto para o novo dia. É a rotina mecânica do início do dia. Espreitei a janela. Um céu cor de chumbo, pesado, transtornou-me ainda mais o espírito. Ameaça de chuva a pairar no tecto aberto, dependente dos humores de S. Pedro. Ponho o pé na rua, apalpo o bolso e nada de telemóvel. Esquecido na mesinha de cabeceira, tão silencioso que não me lembrara dele. Voltar atrás, fora de questão. O reencontro teria de esperar e era a forma de marcar tambêm uma mudança nos hábitos impostos pela ditadura do estar sempre contactável. Confesso que fiquei inquieto, o sangue corria a uma velocidade supersónica, bombardeando sem clemência o espírito em rajada com notícias de que menos esperamos. Raramente passeio de mão dada com o telemóvel, nunca trocámos um abraço, temos uma relação mais recatada, mas íntima de conhecermos os nossos limites e de em caso de necessidade podermos contar um com o outro. Às vezes, sou benevolente demais com o seu piar irritante e constante que não nos deixa descansar. Distraído nos meus pensamentos, entro no autocarro. Não lhe olho para o número. Vai deslizando pelo alcatrão na cidade, lentamente, parando de dois em dois minutos, fazendo desaguar dezenas de pessoas e abrindo as portas a outras tantas que como eu tem pressa para chegar. Vou submerso nos transtornos, nas olheiras que não me largam, e que me fazem ser membro honorário do clube dos mortos-vivos, olho de relance para a janela. Bolas! Não era aqui! Enganei-me no autocarro. A cidade atravessada sem necessidade para a ponta por onde não queria passar. Não tenho outra solução senão sair, procurar a carreira certa que me leve ao meu destino. Queria abraçar o mar e vejo olhos nos olhos com o betão armado e os prédios altos cosmopolitas... E sem poder avisar sem ser em sinais de fumo que ia chegar atrasado...
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