sábado, 30 de maio de 2009

Não sei se lembram do Sinhozinho Malta do "Roque Santeiro". Um verdadeiro pinga-amor, rico no dinheiro e no espírito que sempre que a vida não lhe corria conforme queria ou quando alguém ousava contrariar a sua palavra, rodava a pulseira de ouro que trazia no braço acompanhando o gesto com uma frase que virou moda : "estou certo ou estou errado" e que inspirou os famos sound-bytes que volta e meia ouvimos os políticos repetir sempre que diligentes colegas de profissão espetam os microfones à procura das palavras sábias de quem faz da oratória a profissão. Nunca esquecerei que por causa do Sinhozinho, obriguei os meus pais a inscreverem-me no hipismo, que ficava bem pertinho de casa. Naquele primeiro dia levei uma das primeiras decepções da vida. O meu talento equestre não seria exibido num cavalo igual ao que via Sinhozinho usar e rasgar a galope as pradarias da quinta . De nada serviram as promessas de que mal ganhasse jeito poderia também eu dominar um animaVerificar ortografial igual. O desgosto e o amargo de boca levou-me a preferir o cavalo de madeira, feito com o jeito e a inocência dos 7 anos e com a habilidade precária de quem nunca passou da mediocridade nas aulas de Educação Visual. E porque não adianta recorrer ao eufemismo de facto aquilo era muito mau. O som dos galopes era feito pela imaginação e as pradarias verdejantes nada mais eram que o meu quintal. A pulseira essa, de ouro, roubei-a à coitada da minha avó. Na altura, confesso, não dei nenhuma importância ao facto da personagem usar peruca, porque a minha farta cabeleira não precisava de outro adorno, e até podia ser uma vantagem para mim na hora de namorar com a viuva Porcina, a amante de Sinhozinho, que jurei lá em casa e na rua havia de ser minha. Infelizmente o destino trocou-me as voltas, a viuva ficou com Sinhozinho e ao que dizem vivem felizes até à eternidade.... E eu que lhe iria fazer uma proposta irrecusável...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um dia, quando menos esperarem, vou-vos falar do Armindinho, chamado assim para se distinguir do pai Armindo, que já antes herdara o nome do progenitor. Ninguém sabe ao certo quando começou a tradição secular na família Gonçalves de todos os varões receberem o mesmo nome. Se o destino fosse traiçoeiro e colocasse no mundo um bebé do sexo feminino, então tambêm a imaginação não dava muitas tréguas e a recem-nascida não escapava a ter um Maria como primeiro nome. Era a imagem de marca daquela humilde família de carpinteiros, responsáveis por fornecerem a mobília para toda aquela rua, impedindo as excursões a Paços de Ferreira, a capital por excelência do mobiliário, e onde futebolisticamente falando, mora um dos finalistas da Taça de Portugal. Parece que ainda hoje, tantos anos passados, o passinho nervoso do Armindinho, aquele andar de formiga, como se pedisse licença ao chão para o pisar, com uma precisão cirúrgica nos dias de chuva para escapar das poças em dias de chuva diluviana. Em jeito de brincadeira, desconfiámos vezes sem conta que num daqueles bolsos da camisa branca se escondia uma barra de sabão que apagavam os efeitos do tempo e o amarrotar corrosivo do tempo. A risca, desenhada meticulosamente e com uma precisão cirúrgica , no cabelinho cortado meticulosamente de 2 em 2 meses era apenas mais um exemplo do rigor inimaginável do Armindinho. A merenda, separada pelas várias refeições em etiquetas escritas a letra desenhada que gabaria qualquer professor primário, despertava-nos uma gula, que se não fosse pecado, tinha permitido aos travessos da sala roubarem alguns dos pães ou bolos que estavam naquelas lancheiras. O Armindinho era, no dizer corrente, um copinho de leite. Branco como a cal, alérgico ao sol e aos encantos da praia. Não sei, terei de perguntar ao ministro Jaime Silva se o dr. Nuno Melo copiava nos seus tempos de estudante o meu amigo Armindinho....
Não sei se a afirmação que vou fazer a seguir me dará um bilhete sem regresso para o psiquiatra: mas nunca gostei dos heroís. Nos filmes ou nos livros sempre dou por mim a torcer pelo vilão, a quem não resta outra sina senão morrer com o peito cravado de chumbo, ou quando a imaginação do guionista vai mais longe a vida errante acaba com a queda de um precipício. Desespero com o final feliz do rapaz a quem é permitido beijar a rapariga de olhos luminosos e de cabelo dourado depois de passarem duas horas de costas voltadas pela mão desastrada do destino. Os olhares aflitos, o peito valoroso de quem tem de resolver a questão, arreganhando os dentes às traquinices nunca me seduziram. Se pudesse passava essa parte à frente e concentrava-me apenas nas cenas em que aparecia o vilão. Se a Branca de Neve não tivesse a rainha cruel a seguir-lhe os passos, a encantadora história com os 7 anões como figurantes seria uma sensaboria; se à Bela Adormecida não lhe tivesse dada a sinal cruel de morrer aos 16 anos, o final feliz e trémulo do beijo ao príncipe romântico nada tinha de especial a não ser arrepiar a pele dos mais românticos. Envaideço-me, confesso, com as frases e o cinismo dos anti-heroís. Caso isso não aconteça, e não dê para sentir a amostra da maldade de fel, dos valores pervertidos, saio a contragosto do cinema, amarrotando o bilhete e amaldiçoando os actores e quem escreveu a história... Na vida real, já não acho tanta piada aos vilões que por cá proliferam....

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O bom Jesus!

Era tentador, o cartaz. Anunciava em altas parangonas o confronto entre o presente e o futuro do Benfica. Os holofotes e a curiosidade gulosa de quem tira fotos, de quem escreve ou de quem ouve a voz ampliada pelas rádios estava centrado naquele espaço minúsculo, rectangular onde dois indivíduos gesticulam, berram, incentivam e censuram o que vinte e dois atletas fazem com uma bola a um par de metros de si. De um lado Quique, agarrado à esperança de fazer voar as Axa(s)...- perdão as asas- prateadas de um Benfica que no ano anterior deixara escapar o degrau mais baixo do pódio; do outro, Jesus, cabelo revolto, coração gelado, cerebral na hora de indicar caminhos, com nome de Messias e de santuário obrigatório para as gentes de Braga, com meio pé na Luz na próxima época e que queria premiar o clube português que a par do FC Porto mais contribuiu nas contas europeias, tendo cometido a heresia de quase calar San Siro, uns meses antes. Acocorados e de braçadeira presa ao braço, desunharam-se como poderam nas indicações. O Benfica foi melhor. Porque Eduardo e a defesa do Braga estiveram irreconhecíveis, qual supermercado de marca esmerado na hora de oferecer brindes, porque o treinador do Braga cometeu equívocos, e quando pediu à equipa para ser igual a ela mesma já era tarde e a vantagem gorda da águia inibia a ousadia bracarense. Respirou Quique de alívio, tentado quem sabe na viagem de regresso a Lisboa a ir acender uma velinha ao Bom Jesus do Monte, pensando no seu íntimo como tinha sido "bom (o outro) Jesus", o que encontrara a um par de metros de si....

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gabriel Garcia Márquez, um rapaz simpático, que tem quase tanto jeito como eu para estas coisas da escrita, publicou há anos um livro fantástico, pequenino e que se lê numa voragem chamado "crónica de uma morte anunciada" que dá um jeitaço para fazer títulos quando a imaginação nos prega partidas abandonando-nos ao azar de nos deixar solitários, tristes e oprimidos, entregues a nós mesmos a ter de encher de caracteres a curiosidade de quem nos lê. Não sei se Quique Flores já passou os olhos pelas páginas do romance- escrito na sua língua materna, logo não há desculpas de não conseguir encontrar uma tradução bem feita, o que confesso é um enorme problema, e às vezes quase tão difícil como encontrar uma agulha no palheiro. No caso do treinador do Benfica é quase homérica a tarefa de conseguir ver uma boa exibição nos tempos mais recentes da vida da águia, conformada a mais um ano ter de trabalhar para um bronze que sabe a lata, e penso que Quique .... saberá que a sua hora chegou ao fim...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Chegou a hora de voltar a chamar a este espaço as inseparáveis Beatriz e Bernardette, o orgulho daquela rua no que toca à perversidade feminina. Sentadas naqueles banquinhos amarelos, enregelavam no Inverno e suavam no Verão, na rotina diária de comentar tudo o que mexesse naquela rua, até mesmo se uma praga de formigas decidisse invadir alguma casa seduzida por um pedaço de açúcar. Todos os temas eram apetecíveis, porque eram acessíveis. Levavam muito a sério a sua missão de comentadoras versáteis, uma espécie remota do que viria a ser o Miguel Sousa Tavares e outros que nos enchem as televisões com as suas opiniões, às vezes avalizadas outras nem por isso. A pujança das críticas atingia o apogeu com a Etelvina, a mais odiada da rua, que apenas frequentava para ir dormir, isto porque tinha a irritante mania de ir comprar na rua ao lado tudo o que precisava. O facto irritava Beatriz e Bernardette para quem aquela rua era o lugar sagrado e levavam muito a peito o limite geográfico. Uma questão de honra. Ficou apenas manchada quando o padre Sobrinho encontrou residência na rua fronteira, que deixou as duas cuscas à beira do desespero, a ponto de nunca mais voltarem a por os pés na igreja e de num acto de fé terem transformado o quintal germinado num autêntico santuário...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tenho pena de nunca ter apresentado a D. Aurora ao ministro Manuel Pinho. Garanto-vos que se iam dar bem. A generosidade da cozinheira com quem aprendi a fazer algumas sobremesas-sim, digo-vos que gosto e muito de cozinhar- sempre a oferecer pratos de leite creme ou mousse de chocolate a quem passava na rua, arrastando o robe encarnado aos folhos e os eternos rolos que só largava em ocasiões de festa, não tinha preço. Nos dias de férias, logo depois do raiar da aurora era a azáfama. Visitávamos a mercearia da Mariana, de onde tirávamos o stock da farinha maiezena, os ovos, a manteiga e o açucar, que como qualquer doceiro que se prese sabe são essenciais e metíamos a mão na massa. O sorriso na cara, era o mesmo que vi o ministro da Economia fazer quando tirou aquelas fotografias com o Micheal Phelps, no Verão passado, no mesmo Allgarve que quis vender aos ingleses que por lá deixaram ficar uma Maddie aqui há dois anos, numa praia da Luz que agora é uma escuridão. Os nossos bolos eram um regalo, e se ainda for a tempo juro que faço o meu bolo de iogurte e ofereço um pouco ao dr. Paulo Rangel, com quem tenho o prazer de partilhar o ginásio algumas vezes para abater as calorias... e, porque não ao ministro Pinho claro, porque assim sempre fica com a boca cheia... e em boca cheia....

sábado, 2 de maio de 2009

Ela viera ao ledo engano. Telemóvel colado à orelha, olhos pisados por uma noite de excessos e um sorriso escarolado desenhado em toda a extensão da boca. Os olhos negros e perscrutadores em sobressalto, em constante movimento. Percorria as mesas, soltando a cada olhar as faiscas da tristeza. Ele não viera. A decepção toma conta de si. Percorre cada milímetro do corpo à medida que vai escorrendo monossílabos para quem está do outro lado da linha. Parece uma trapezista no número arriscado do trapézio sem rede. O equilibrio, o cenário de sonho de um final de tarde imaginado, imaginário, féerico, esvaiu-se. O sorriso doce tornou-se amargo. Decidida, nem ligou aos olhares clandestinos que os homens lhe lançavam à passagem. Imprimiu uma velocidade estonteante e saiu.
Ele chegou com o sorriso enigmático de Gioconda. Não era possível saber se tinha sido promovido no emprego ou se a mulher lhe deixara na mesa-de-cabeceira um bilhete a despedir-se do casamento. Não reagiu quando a empregada o cumprimentou. O sorriso a tracejado manteve-o, os olhos imóveis indicavam-lhe o caminho para a mesa, que seguiu disciplinado, sem pestanejar. Pela greta das pálpebras consultou a ementa num vagar oriental. Meneou a cabeça ao ver as sugestões, sem significado especial, nem outro destinatário a não ser ele mesmo. Seria mesmo só para ele. Remexeu nos bolsos, passou a mão pelo cabelo loiro sem brilho, treinou a pose de óculos escuros, mas rapidamente percebeu que o estatuto de galã ensaiado longos dias ao espelho não era apropriado. Ficou imóvel e em silêncio, olhando gulosamente para a empregada que se afastava, depois de lhe ter pedido uma cerveja. Quando a bebida chegou, enorme, escorrendo de espuma pelas paredes frias do vidro do copo, atirou-se a ela com a avidez de um milionário forreta pelo extracto bancário. Bebeu-a de um trago, pousou o copo, ensaiou um arroto e ficou imóvel a fixar o copo vazio e derrotado. Não tentou recuperar o sorriso, que se desvanecia no fim de tarde nebuloso, o olhar contemplativo cada vez mais cerrado, os olhos pareciam pesar toneladas e resignar-se. Inclinou-se devagar e foi caindo, caindo, até cair de cabeça, qual mergulhador mal treinado na piscina. Esquecido de si, adormeceu no tampo da mesa. O sono estático, mas merecido de quem nunca mais queria acordar...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Já há alguns anos que o país seguia os trilhos da liberdade. O polivalente do então Liceu estava a abarrotar de ideias e de entusiasmo, numa dessas reuniões que pode não servir para mais nada a não ser para uma gazeta saborosa a umas aulas,o que até calhava bem, já que coincidia com um teste de Matemática que ninguém queria fazer. E depois, em cima da mesa de discussão estaria o futuro, uma coisa sempre importante, talvez até mais vital do que o presente. A reunião estava uma autêntica balbúrdia. Vozes descontroladas, gritos sobrepostos, ideias soltas em surdina, sem qualquer tipo de entendimento possível. Julgo que ouvi uma vez dizer o professor Hermano Saraiva, que em 1385 o mestre de Aviz teve de se zangar a sério com o Conde de Andeiro para que pudéssemos ter alguma ordem no país; anos depois foi preciso mandar o traidor Miguel de Vasconcellos pela janela para recuperar a Independência . Numa mesa encostada ao canto, alérgicos a tanta vozearia e discussão estéril, quatro alunos jogavam as cartas. dentes cerrados, olhar concentrado no ritmo e nos naipes que iam saindo, bem como nos olhares apavorados e ameaçadores que se podia observar saídos de adversários ou do parceiro de equipa. Era quase uma questão de honra. Aquela discussão selvagem traía todos os esforços de concentração, necessária quanto mais não fosse quando estava em causa um jantar com a Angelina, a dona do sorriso mais sensual do liceu e portadora das sardas mais bonitas que alguma vez vi. Farto e chateado, o Aníbal, fez uso da sua voz de trovão, grossa e que assustava os adversários nos jogos de futebol, pegou no microfone e disse: "É favor fazerem pouco barulho que há gente que precisa de se concentrar no jogo de cartas. Falem um de cada vez, por favor". A plateia abarrotou de riso, deliciada com a oportunidade do comentário, até porque se iniciava o decisivo jogo que desfazeria o empate teimoso que até então vigorava, serenou os ânimos, e percebeu-se que por vezes um jogo de cartas consegue ser mais importante do que um punhado de ideias importantes dadas avulsamente e sem qualquer ordem...
Julgo que ninguêm ficou com dúvidas sobre a tristeza que invadiu aquela rua aos paralelos, no dia em que a Mariana fechou as portas castanhas, quase beges quando a chuva fazia das suas permitindo que pudessemos atirar as roupas leves para um canto do guarda-fatos ou para a arca quadriculada a verde e azul, porque chovia sempre e não havia perigo de errar. Agora, S. Pedro espreme as nuvens quando quer, volta e meia está sol e quando calha até neva. Se tivessem conhecido o Dedo Gordo de certo que não se espantavam que ele atribuísse as culpas ao Governo por este tempo desorientado, por esta bandalheira que até já chegou ao clima. Ninguém o podia levar a mal. Convém explicar que a alcunha foi fruto do acaso, ou melhor dito, de uma martelada errada no polegar, acompanhado de palavreado menos conveniente, quando Alfredo Fernandes Silva, em plena actividade de carpinteiro, se distraíu ao olhar pela janela que consertava. Nunca mais o dedo ficou igual ao que era antes, exibindo para sempre a marca daquele descuido fatal.
Era um regalo para a congestão toda a sapiência política daquele homem, que dissertava na esquina da mercearia da Mariana, às vezes sozinho, outras vezes conseguindo juntar um grupo de jovens à sua volta, porque os mais velhos estavam entretidos com o dominó e já há muito que se incompatibilizaram com aquela teoria de culpar o executivo por todos os males e a muito fresca revolução de Abril, que encheu de cravos um Portugal magoado e oprimido, que o fez sonhar sem muito bem saber porquê. De pé, porque ganhara aversão às cadeiras desde que Salazar caiu de uma, empertigado nos vaticinios, como quando a Mariana não resistiu a um mini-mercado de prateleiras asseadas e preços mais em conta, o Dedo Gordo vaticinou a perda de identidade do país, destroçado com o progresso e a falta de apoio a um pilar da sociedade essencial: a família. Refinado fascista repetia que só os tachos interessam. Mais tarde os tachos foram conhecidos por "jobs" que engordam os melhor nutridos e fazem os mais magros perder peso. A esperança já se tingiu de vermelho, coloriu-se de laranja, passou a rosa e dizem que vai voltar à tonalidade de laranja. E chamem-lhe o que quiserem: amizades, compadrios, tachos, jobs, o facto é que eles existem e continuarão a existir, como o Dedo Gordo faz questão de lembrar...