sexta-feira, 24 de abril de 2009
Os leitores mais atentos já conhecem D. Birgolina. Para aqueles reprovados por faltas pela irregularidade com que por aqui passam- o que não levo a mal- faço o favor de a apresentar. Uma palavra define-a: cusca. Para sermos mais exactos e cumprirmos o que nos foi pedido primeiro por Cavaco e a seguir por Manuela Ferreira Leite devemos acrescentar: a cusca, a intriguista. Naquela cozinha branca tinha dois objectos de adoração devota: um cruxifixo e um emblema do Sporting. Ai de quem por ali entrasse e não olhasse respeitosamente e demoradamente para aquele leãozinho, por acaso parecido com o que ruge no início de alguns filmes, ou como ela dizia, o "dos cinemas". E, realmente, ninguém se atrevia a entrar naquela casinha modesta da vendedora de fruta- com as caixas empacotadas na porta exígua sempre aberta, sem prestar a verdadeira veneração pelo animal que na escola nos ensinaram ser o rei dos animais. Uma vez ganhei três laranjas por dizer que era do Sporting. Três dias depois, e porque não há fita que não se descubra, nem um bom dia para amostra. D. Birgolina detestava a "besta" como chamava à vizinha do lado, que só para a ver com as fartíssimas orelhas a mexer dizia que era do Benfica, onde tempos antes jogara esse rapazinho com alguma habilidade chamado Eusébio, verdadeiro apreciador de marisco, nem que quisesse dizer tremoços. Nos "casos do dia" daquela rua aos paralelos havia sempre algo em que a parceira de porta estava envolvida, mesmo que saísse da fértil imaginação: ou tinha sempre o outro lado da cama aquecido, ou a roupa surripiada ao estendal alheio tinha as impressões digitais da vizinha, a quem não perdoava a adoração pelo clube dos seis milhões. D. Birgolina, apesar de tudo deixou saudades e mesmo morta por uma síncope, foi-lhe difícil arrancar das mãos cruxifico e o emblema do Sporting. E morreu com certeza zangada com a vizinha e comigo....
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Era uma maravilha. Saía de casa, logo de manhã, com os escudos-hoje euros- suficientes no bolso para fazer a viagem de camioneta até ao Liceu de Matosinhos. Plantava-me na paragem de camioneta, junto ao muro do terreno do Macedo, onde hoje está edificado um prédio de seis andares. Certificava-me que o caminho estava livre e atravessava pelo meu próprio pé a rua que conduzia até à ponte móvel. Pelo caminho ia de namoro com a Gracinha e quase sempre chegávamos atrasados à primeira aula, que ainda por cima era a mais chata do dia, calhando muitas vezes a matemática a honra de inaugurar o nosso dia escolar, porque nos perdíamos em beijos dados assim à socapa na viela dos Quicas, a seita mais tenebrosa do concelho a.N. (antes de Narciso), embora fossem condescendentes para um casal de namoradinhos aí pelos quinze anos, a rebentar de acne por todos os lados. Era uma forma de poupar e ganhar. Poupava dinheiro para o SG Filtro que estava na moda e para uns almoços mais substanciais na cantina e ganhava direito a uns beijinhos à socapa, que quem não gosta deles assim não deve ser filho de boa gente certamente.
Atravessar a ponte móvel era, pois um acto de namoro mas igualmente de poupança que durou até lá em casa descobrirem que afinal o dinheiro das camionetas era para o tabaco. O corte do subsídio familiar foi imediato. Além de ser forçado à caminhada mesmo em dias de chuva diluviana, fui obrigado a fumar avulso e a ter um isqueiro pronto para, como outros, alinhar na técnica do crava...
Atravessar a ponte móvel era, pois um acto de namoro mas igualmente de poupança que durou até lá em casa descobrirem que afinal o dinheiro das camionetas era para o tabaco. O corte do subsídio familiar foi imediato. Além de ser forçado à caminhada mesmo em dias de chuva diluviana, fui obrigado a fumar avulso e a ter um isqueiro pronto para, como outros, alinhar na técnica do crava...
terça-feira, 21 de abril de 2009
Um dia, naquela escola, aquela sala branca caiada com um quadro negro austero e um mapa de Portugal enorme, com dois pregos salientes na parede onde tempos antes repousaram as figuras de Caetano e Thomaz com os seus sorrisos a olharem os alunos de antigamente, foi preciso resolver um pequeno/grande problema. O pão com marmelada do Gasparzinho-figura já conhecida por alguns leitores- misteriosamente desaparecera da pasta. Revirou-se tudo, revistaram-se os bolsos dos mais dados a traquinices e nada. Ninguém, além do acaso encontrava resposta para aquele estranho incidente que veio manchar a parte da aula antes do almoço daquele dia que até estava a correr bem. A professora Florinda, enfurecida, parecia não acreditar na resposta aventada por muitos: a mãe do Gaspar tinha-se esquecido pura e simplesmente de mandar a merenda ao filho. Um erro ligeiro que acontece a todas, mesmo às melhores mães do Mundo. Como ninguém se acusou, o assunto foi resolvido salomónicamente: três dias sem intervalo até que se acusasse ou fosse apanhado o autor da proeza de misteriosamente surripiar o lanche do mesquinho do Gaspar que , verdade seja dita merecia ficar sem comer durante um bom tempo. Por tudo quanto nos fazia passar, pelas vergonhas dos perus que dava quando decidia ser o guarda-redes da nossa pequena equipa e, porque depois da aula ajudava a Tininha, a menina mais bonita da rua, nas divisões com três algarismos, que para ela eram um autêntico quebra-cabeças. Depois de ouvirmos a campainha, nesse dia, e retidos na sala por causa do sumiço do pão com marmelada decidimos vingar-nos. Três socos, quatro pontapés e duas bofetadas, que deram origem a lamúrias e queixas várias, que depois nessa noite vim a sentir na pele através do chinelo impiedoso da D. Celeste. De nada valeram os meus argumentos de que estávamos todos fartos de queixinhas.. Até ao final do ano éramos obrigados a pagar o pão ao Gaspar, o que provocou um autêntico rombo nas finanças parcas lá de casa.
.. Mais grave se tornou quando descobrimos, que afinal o pão com marmelada não podia ter estado na pasta porque pura e simplesmente o Gaspar o tinha comido antes de chegar à escola...
.. Mais grave se tornou quando descobrimos, que afinal o pão com marmelada não podia ter estado na pasta porque pura e simplesmente o Gaspar o tinha comido antes de chegar à escola...
quarta-feira, 15 de abril de 2009
A traição de Ronaldo!
A frio, sem ter feito nada para o justificar, Ronaldo colocou o ponto final na tradição de invencibilidade do campeão português em solo lusitano sempre que tinha pela frente equipas inglesas, e convenceu o FC Porto com um petardo de meia-distância que aproveitou e bem o ligeiro adiantamento de Helton, que seria difícil repetir o feito de há cinco anos. A vantagem do United tinha cabeça, tronco e membros para sobreviver, era cabível e irrevogável na perspectiva de que o início do jogo tinha deixado a nu a fragilidade do dragão que parecia avidamente agarrado ao empate que trouxera de Old Trafford. A interferência psicológica da UEFA ao roubar Jesualdo do banco de suplentes, poderia fazer pender a eliminatória para o lado inglês, mas a partir de meio da primeira parte o campeão português soube-se prevenir da habilidade britânica e testou tambêm ele o ataque. Ousou, mas Hulk não estava nos seus dias mais incriveis, as habilidades de Meireles não surpreenderam e a lesão de Lucho mutilou o FC Porto que tudo fez para sair com a vitória, mesmo sabendo que um golo britânico bastaria para calar a esperança portuguesa em repetir o feito de há cinco anos. Agora, pelo menos um clube inglês irá para Roma lutar pelo troféu...
terça-feira, 14 de abril de 2009
Beatriz e Bernardette eram duas das mais temíveis vizinhas. De língua viperina afiada, sempre prontas na hora de roubar alguma peça de roupa ao estendal vizinho pela calada da noite, constituíam o verdadeiro pavor para os moradores das redondezas. Eram as primeiras a tricotar os mexericos que alimentavam o quotidiano. As traições, as contas penduradas no talho ou na mercearia, as notas das crianças, tudo passava em comentário por aquelas bocas que soltavam críticas e censuras enquanto cozinhavam ou tricotavam camisolas de lã que as aqueciam dos rigores do Inverno. Havia mesmo quem as considerasse gémeas ou que jurasse a pés juntos e dedos descruzados que eram irmãs. Mas uma rápida consulta à árvore genelógica de ambas desmentia o parentesco, e as afinidades foram traídas quando se descobriu que ambas partilhavam sem o saber o mesmo amante. O imberbe garanhão causador de tudo fugiu para nunca mais voltar, não deixando mais rasto. Beatriz e Bernardette de coração dilacerado nunca mais se falaram. Apenas trocavam ameaças de uma contar as verdades da outra, e tudo o que ocultaram do resto da rua durante os anos em que durou aquela amizade que se julgava ser de granito.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O anjo azul
"Que jogo dos Diabos! Devias ter vindo". A mensagem, recebida poucos segundos depois do austríaco Plautz ter apitado pela última vez, dedilhada por um colega de profissão, um cavaleiro andante à procura da notícia e de saciar o interesse de quem lê, espelha a felicidade que invadiu a mente portista depois daquele empate que sabe a pouco. No inferno de Old Trafford, o FCPorto saiu pela porta do purgatório, porque ainda há hora-e-meia por jogar, e um golo a frio, na alvorada do jogo, como aquele do Rodriguez, mas dos de vermelho, pode complicar e muito as coisas. Foi uma exibição de classe com requintes de sordidez, como a Lola Lola que conseguiu levar à certa o pobre professor Honrad no filme com o mesmo título deste post. Dançou, obrigou Alex Fergunson a fazer a vénia ao seu futebol, e a reflectir que afinal o "seu" Manchester não é tão esguio e esbelto, tão lindo de morrer como julgava. O empate com que mais uma vez, cinco anos depois, o FC Porto deixa Manchester deixa um sabor agradável na boca, para de hoje a uma semana, as portas do paraíso se abrirem de par em par. Isto se eles não decidirem ser autênticos diabinhos e apagar as labaredas do Dragão... Algo me diz, senhor dragão, que pode começar a reservar o bilhete para essa atormentada Roma, a lutar para sair dos escombros desse sismo tão recente...
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Como para muitos, a tropa do Manuel Manco- alcunhado assim por razões relacionadas com esta história que vos vou contar- foi um autêntico inferno, saído de um livro do Lobo Antunes. Verdadeiramente atroz, se comparada com a minha- que passei logo à reserva, e eu que tinha um jeitinho tão grande para jogar à bola e chafurdar pelo mato a tentar matar inimigos vis- e não tive que engendrar um esquema tão bem montado como aquele que o Manel levava na ponta da língua e no pé e que uma mera distracção deitou tudo a perder. As horas e dias de esforço para mancar originaram um burburinho enorme na rua. Não faltou quem se apresasse a apresentar desculpas: ou a queda da bicicleta azul recebida no Natal, ou uma martelada falhada quando tentava prender a velha casota de madeira do Benfica, o cão companheiro fiel. Para o Manel era acaso do destino de um momento para o outro mancar com o pé esquerdo metido para dentro. A razão para tentar escapar à tropa era apenas uma: estava noivo da menina mais bonita da rua e aqueles meses passados no quartel ao serviço da Nação podiam ser fatais para o propósito de com ela vir a partilhar os melhores e piores momentos da vida. Quando chegou à inspecção e mostrou aquele pé tortíssimo, o graduado, movido por uma súbita inspiração, pediu ao mancebo para lhe mostrar como tinha o pé antes do acidente. De tão distraído, e já com meia vitória no papo, Manel endireitou o pé e ganhou o bilhete para o quartel de Mafra, perdendo depois a namorada para o filho do padeiro da zona. Pelo caminho foi insultando o graduado que apenas cmpriu a sua missão e não se deixou iludir pela patranha que tinha sensibilizado os moradores da rua que viu o Manel crescer. A história que parece anedota mas não é, lembra-me e muito uma outra que se passa por estes dias neste Portugal profundo. Dá-se um doce a quem adivinhar...
domingo, 5 de abril de 2009
Não vou esquecer o que se passou um dia no período pré-eleitoral no clube da terra. Fernandes era o mais interessado em chegar à presidência do clube-não que aquilo desse um ordenado capaz de rivalizar com a fortuna do Tio Patinhas, mas a verdade é que quem ocupava o cargo usava de uma autoridade magnífica junto, por exemplo, da Tininha. Era ela quem lavava os equipamentos dos jogadores com muito aprumo, e segundo dizem as más línguas, não se ficava só pelos equipamentos. Naquela casa amarelo torrado, desmaiado quando as primeiras chuvas molhavam a tinta, viviam-se grandes romances e inconfessáveis amores, porque desde jogadores ao tesoureiro, ninguém evitava lá ir levar o saco da roupa suja. Essa voluntariedade acabou precisamente no dia em que Fernandes subiu à presidência. Tininha (mais tarde e por direito próprio Maria Albertina Fernandes) passou para as garras do novo presidente. Aquela mulher de rosto afiado, com um nariz a desafiar o do Júlio Isidro em tamanho e porte sensual e atributos carnais, deixou de ser a alegria da equipa do futebol, e talvez por causa disso na presidência de fernnades o record mais negativo de derrotas consecutivas foi batido e por larga margem. Ninguém sabe contar o que se passou na hora de colocar a cruz no boletim de votos, no anexo do tasco do Isidoro, que servia de sede da colectividade. Contam que havia bar aberto e bebidas à discrição e uma lagosta de chorar por mais, que devem ter contado muito na hora dos 22 cidadãos votarem, todos eles em Fernandes. Tambêm perto das eleições, o presidente caprichava nas ofertas...
Um líder de primeira!
O tetra está cada vez mais viçoso. Meigo e sonolento, dorme no berço o sono justo dos que sabe que a felicidade está mesmo aí ao virar da esquina. Mesmo depois do Guimarães lhe ter provado que era atrevido, de ter durante alguns minutos sentido o chão a fugir-lhe dos pés, de alguns portistas terem torcido o nariz a algumas caras com que Jesualdo revestiu a face inicial do dragão, o FC Porto acreditou que podia sair de Guimarães com os bolsos recheados. Jogou bem, mandou no jogo e fez com que os seus adeptos trauteassem a canção de embalar para o tetra no fim. E já lá vão oito vitórias seguidas- um novo record- que atira o anterior feito de Mourinho para memória futura. A pressão - uma palavra pronunciada com insistência nos últimos dias- recai agora nos ombros do Sporting, que não vai querer molhar os pés no Mar e na águia que na Reboleira não vai certamente pretender ver Estrelas...
sábado, 4 de abril de 2009
Ninguém no pais é capaz de compreender a alegria que invadiu aquela pequena rua aos paralelos no dia em que lá chegou a Mariana do Tabefe, assim conhecida por uma infeliz circunstância do destino. Os leitores farão o favor de a julgar. A Mariana era uma jovem alta, esguia, copiava a Sandy Show no comprimento da saia, mas dava-lhe uma goleadas das antigas no que se refere à sensualidade das coxas. Entendia G, o dono do talho (convêm ficar por aqui porque ainda pertence e ainda bem ao mundo dos vivos) que era a rapariga mais bonita que vira pisar aquela rua. Os olhos caiam-lhe como acontece aos desenhos animados japoneses, aos saltinhos até chegar aos paralelos. Um dia, G. sentiu-se o homem mais feliz do Mundo. Nada mais nada menos do que a própria Mariana entrou no talho e pediu-lhe para pesar meio quilo de carne de vaca, com aquela voz sensual que deixava o ouvido a palpitar por mais. G., a delirar, anestesiado pelo tom sedoso da voz, saiu do balcão e levou a mão às pernas da Mariana. Que, e muito bem, não se fez rogada e lhe despachou um tabefe de professora primária das antigas fazendo com que o talhante batesse com a nunca no mármore do balcão. Ficou por momentos zonzo. A Mariana fugiu à pressa de mãos vazias, mas ainda a tempo de se cruzar com a D. Birgolina, a cusca da rua e a cliente com mais livro no talho. Porque deu jeito à contabilidade da coscuvilheira e ao bom nome de G., a Mariana passou a ser a má da fita e na rua todos ficaram a saber que a Mariana acarretava o odioso de ter entrado no talho com o firme propósito de tentar o talhante, e ainda por cima casado. resultado: não pôde viver mais ali...
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Vocês não imaginam o escarcéu dos antigos que eu provoquei um dia na sala de aulas da 2ª classe, deixando a professora em polvorosa e a restante turma à beira de um ataque de nervos. À minha frente, como sempre, estava aquele patarata do Gasparzinho, que se julgava no direito de, ao intervalo, ocupar o meu lugar na equipa que desafiava homericamente a "quarta classe". Subornava o dono da bola com um pão com manteiga, só porque tinha o privilégio da mãe ser a padeira da zona. Nesse dia, acordei disposto a provocar uma situação escandalosa, nem que por causa dela fosse chamado ao quadro para fazer as contas de dividir, logo eu que sou mais de multiplicar. Então, abençoado alfinete-bebé que desviei à caixa de costura da minha avó. Esperei a melhor oportunidade e espeto o alfinete no rabo do Gaspar. Deu um salto, um berro e foi contemplado, sem tempo para dar explicações, com um convite para sair da sala, de cabeça baixa. A professora não tolerou a interrupção do ditado, porque originou a gargalhada geral e comentários dos mais jocosos que já pude testemunhar, não sendo sensível ao apelo do choroso que tentava explicar a razão do berro. Felicíssimo da vida, esfreguei as mãos e gritei ao Mundo "fui eu o autor da proeza que expulsou o Gasparzinho (pela primeira e única vez na sua carreira de aluno de uma sala de aulas). Não tive medo de o dizer em frente à professora, que me deixou três semanas sem intervalo, originando que ficasse no banco de suplentes até ao fim do ano escolar. Não sei porquê mas ao ler e ouvir este novelo emaranhado de equívocos e contradições que é o caso Freeport, lembro-me sempre deste pequeno incidente que mancha o meu cadastro de aluno exemplar.
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