sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eram 23h 30 minutos TAG- menos uma hora na Madeira, menos duas nos Açores e menos quatro nas províncias ultramarinas- juro que não invejo os locutores de noticiário que em tempos antigos tinham de providenciar esta informação a quem os ouvia- quando a Charlise Theron se desfazia no mais profundo pranto. A França tinha acabado de deixar a última gota de suor no relvado de Saint Denis e fazia a festa com direito a foguetório no palácio do Eliseu, deixando a Irlanda apeada já com a mala encravada na porta de embarque do avião para a África do Sul. O golo da polémica e que deixou a cara da Charlise feia, tinha sido marcado com a ajuda da mão que passou despercebida ao árbitro, talvez crente de que Thierry Henry tivesse nascido maneta e que por isso nada tinha havido de irregular na jogada que fez com que os gauleses abrissem os braços- uma expressão que vem a propósito. Desconsolada a simpática loira lá teve de confortar a cara metade, irlandês, com muitos miminhos e algumas carícias que deixo à imaginação do leitor por não possuir dados concretos. Aliás, só de pensar nisso já me roo de inveja, que é um pecado mortal, mas que deve merecer toda a absolvição por se tratar da Charlise, uma rapariga tão simpática e que deve ter como eu uma aversão a franceses desde pequenina. Nunca gostei do Asterix, esse palmo e meio de gente que me irritava por chamar loucos aos romanos, logo eu que simpatizo com o Marco António por ter ficado com a Cleopatra do nariz imperfeito deixando o coitado do Júlio César a chuchar no dedo mindinho.; não acho a mínima piada às pirâmides do Louvre; a Mona LIsa é tão pequenina que se precisa de uma lupa para a ver. Tenho pena que a Charlise não tenha alguém com quem protestar durante o Mundial, isto porque o namorado irlandês não conta para as contas finais da competição. Se ela quiser, eu acompanho-a à sua terra natal e puxamos cada qual pela respectiva selecção e no fim que ganhe o melhor. QUando perderem, prometo que lhe enxugo as lágrimas. Confesso que me pareceu que foi o que Armando Vara ontem quis na RTP: que Judite de Sousa lhe secasse os olhos. Comovido com o discurso do self made man, jurando a pés juntos a inocência e uma vida angelical e que deve ter feito o Vaticano apurar o ouvido para começar o processo da canonização, fez mal as contas de que o juiz de Aveiro lhe acabasse com o pesadelo acendendo-lhe a luz. Pelo contrário turvou-lhe as contas, ao estilo do Guterres que se atropelou um dia nos números do PIB, ou do ministro Mário Lino que provocou uma irritação na barba desse prosador de escárnio e mal-dizer do reino chamado Pacheco Pereira ao baralhar por completo o preço do Magalhães.... Talvez estejam à espera do colinho da Charlise...

domingo, 29 de novembro de 2009

Rainha da sucata

Os anos 90 arrancaram em força. Injectaram no país a esperança de uma vida melhorada e de luxos que o fascismo reprimira. A sachola tinha sido trocada pela fábrica; a Europa era a ponte aberta para um futuro mais risonho; Macau ainda a última paragem do velho império; a palavra saudade era presença obrigatória nos fados das cantorias que emocionavam o país que se prendia a apenas 2 canais. Era presença obrigatória que prendia as atenções e monopolizava a atenção dos dias úteis a novela trazida do outro lado do Atlântico com os seus humores lânguidos, paixões arrebatadoras e interpretações geniais, longe da teatralidade que imperava por cá, fazia as delícias esta novela chamada Rainha da Sucata, uma genial sátira ao novo riquismo. Não sei se esse foi o ponto de partida para essa aberração nacional chamada Face Oculta, um nome de código estranho já que estamos todos fartinhos de saber quem são os arguidos ou suspeitos, levando-nos a concluir que são todos anjinhos e que de prendas mesmo no Natal se reduzem a ftos de treino ou peixitos para devorar num almoço de domingo. Nada de dinheiro ou de relógios ou férias em lugares exóticos que o futebol tornou tão comum. Não posso deixar de rir com este processo que vai desembocar num enfado até ser esquecido. Oxalá não bata recordes de permanência nos nossos ecrãs...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Logo eu que gosto de escrever sobre mulheres bonitas- e a mulheres bonitas, esclareça-se, eu que já dei muito trabalho ao carteiro da Julia Roberts, que para meu desgosto ainda não me devolveu a gentileza dos cartões de boas festas e de aniversários- vejo-me obrigado a falar de José Saramago que lá arranjou mais uma polémica enterrada há 18 anos quando escreveu aquele Evangelho em nome de Jesus Cristo. A igreja não achou piada, nem um tal de Sousa Lara que por aquilo não ter a pontuação que devia que o impediram de passar da 4ª linha atirou cem pedras à ousadia do escritor. Agora volta a Bíblia ao centro das atenções, despejando ódio por Deus- embora regougue que não acredita Nele- e deixando para segundo plano a discussão sobre a nova equipa de Sócrates, a cegueira do Lucílio no jogo do líder Braga com o Rio Ave, a gravidez da Cláudia Vieira, tudo assuntos de grandeza superior à discussão estéril e vaidosa de um homem que na falta de argumentos literários- vale o que vale é a minha opinião, desde que ganhou o Nobel que ainda não escreveu um livro à altura dos anteriores- arranja todos os argumentos para voltar a incidir sobre si a luz quente dos projectores e das páginas dos jornais. Emigrado em Lanzarote podia deitar ao mar que rodeia a ilha as frustrações e amarguras da sua alma em vez de verter para o papel o fel, que lhe prejudica ainda mais a saúde debilitada que exibe. Ter outras preocupações que não o livro mais traduzido do mundo e que está presente na mesinha de cabeceira dos cristãos. Eu, por exemplo, não ligo nada a música e não me passa pela cabeça escrever 200 páginas a censurar as letras das canções... Não lhes dou importância. Mas, Saramago, tem outra música na cabeça...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Juro que tenho inveja de Sócrates. Não do filósofo grego que esse deu-me algumas dores de cabeça ainda hoje incuráveis nas aulas de Filosofia depois de ler os diálogos do Platão, um rapaz que me parecia simpático e que dizem ter sido capaz de inventar essa personagem que nunca deixou uma linha escrita, mas do nosso primeiro, que por estes dias deve andar numa roda-viva à procura de ministros para preencher o governo que terá de passar pelo crivo do Presidente da república, com quem, como se sabe as coisas não andam lá muito bem. Perdoem-me, caríssimos que fazem a gentileza de me lerem, mas estive tentado a ir a S. Bento pedir emprestado o peluche do anão Zangado- apenas e só a minha personagem predilecta da Branca de Neve- ao nosso chefe do Governo e se pudesse entregava ao primeiro-ministro o número da Maitê Proença, uma das mais abalizadas especialistas em geografia e costumes portugueses e que até tem um palminho de cara jeitosa, e ao que parece gosta tanto de Portugal como o nosso Nobel Saramago da Bíblia, como ontem aprendemos, para que a pudesse indigitar como ministra dos negócios estrangeiros. Irrita-me que o primeiro-ministro, que perdeu tempo naquelas cinco reuniões com os líderes dos partidos, não me tenha ouvido a mim. Ter-lhe-ia poupado o tempo e o vexame de ter de colocar o melhor sorriso ao ouvir os rotundos "não" que sairam da boca de Ferreira Leite, Louçã, Jerónimo e Portas. Poderíamos juntos, ter chegado a um acordo quanto à posse do boneco do Zangado, que ainda hoje invejo e hei de obter, e talvez durante a conversa tivessemos chegado à conclusão que eu seria um ministro em potência. Tal como no futebol, onde somos todos treinadores de bancada e célebres no decapitar do treinador do nosso clube, na política somos todos uns ministros em potência. São coisas minhas, mas acho mal não terem convidado o dr. Deus Pinheiro, que não deve ter gostado da nova decoração da Assembleia e pisgou-se o mais rapidamente possível dali. Se fosse possível, gostaria de ver Diego Maradona, que dizem as minhas fontes anda a ouvir muito Santos Silva, esse malcriadão e pateta ministro que gosta de malhar nos jornalistas embora o deleite maior seja usar o gancho direito, a Ministro e a exibir aquele sorrisinho escaninho perante as câmaras dos telejornais. Outro que também gostava de ver de pasta na mão era o Pacheco Pereira, anda muito azedo e cheio de queixumes para o meu gosto. Fazia-lhe bem, digo eu. Vêem o que perdeu José Sócrates e o país por não me terem ouvido?

domingo, 11 de outubro de 2009

Com a vénia ao Trio de Odemira, a igreja estava toda iluminada e ela, a Lucinda, já estava casada. Beijou o noivo, marcando a face esquerda de Diamantino com o tom garrido do rouxo do batom que a mão amiga surripiara de uma prateleira clandestina do mercado. E com pompa e circunstância, o coro dos acólitos da igreja lá gargarejavam os tops rascas da época. O padre Sobrinho perdia um cabelo perante tanto desafino, mas manteve a compustura para que a cerimónia continuasse até ao "ide em paz" que parece ter picado e guiado a maioria dos presentes para o tasco do Carvalho, o local da boda de água, descurando aquela chatice das fotografias, em que se pede que os noivos sejam esfinges e coloquem a cada disparo da objectiva o sorriso de locutora de continuidade, o que seria quase impossível perante a presença da Frederica, a figura mais odiada que habitava a casinha verde alface de portadas ferrujentas no extremo sul da rua. A sua presença, para perceberem melhor, era menos bem-vinda do que a da bruxa má do Oeste a casa da doce Doroty Gale. Um enorme tufão percorria a espinha da Lucinda mal cruzou o olhar com aqueles olhos límpidos à Elisabeth Taylor que haviam seduzido há anos o Diamantino. Esclareça-se aqui que a gravidez foi a razão do matrimónio. D. Birgolina armada até aos cabelos pela incondicional defesa da moral e dos bons costumes vociferou contra o casamento, já que a outra, a Frederica, que tinha a sua benção merecida pelas inesgotáveis oferendas semanais, generosas contribuições saídas do bolso de quem tinha noites bastante trabalhosas na providencial arte de dar prazer aos rapazes casados ou solteiros que a procuravam depois da ronda de dominó. Para a paz da rua, dizia a alcoviteira mor da rua, qual Pacheco Pereira, o verdadeiro especialista em prémios Nobel, a Frederica devia ser a noiva, mesmo que a outra estivesse grávida. Porque ficava provado que Lucinda não tinha esperado pela lua de mel para conhecer e dar-se a conhecer mais intimamente. Segundo D. Birgolina, mais vale parecê-lo que sê-lo, alguns políticos parecem concordar com ela....

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Julgava que podia escapar de vos apresentar a Salette, mas não me perdoava a mim mesmo se guardasse para mim a avantajada rapariga de nariz adunco, cabelos fartos e com trançinhas e o peito mais cobiçado daquela rua aos paralelos. Menina prendada, acólita da missa dos domingos, provocou um verdadeiro escândalo ao surgir grávida. Foi uma gravidez rápida que nem o dr. Pintas, o barão mais ilustre da medicina da rua foi capaz de desvendar. Basta estar viva e com fome, atirou para o ar o Quim Roscas, numa verdade que o sr de La Palice não enjeitaria. O dr. Pintas enlouqueceu na tentativa de dar resposta à questão que inquietou a rua e matou-se com o remédio do escaravelho, donde se prova que até para o escaravelho há remédio. Ainda hoje não há conclusão definitiva para esta gravidez que gerou atrás de si a morte e o suicídio de um escaravelho para investigar, que provavelmente tomou remédio humano. E era preciso isto tudo? Caros amigos, a pergunta lançada no meio da confusão acesa pela nossa bem conhecida D. Birgolina faz todo o sentido. Ontem, coloquei-a muitas vezes depois de ouvir as arautas vozes que comentaram a comunicação de Cavaco ao país. Não esclareceu o problema das escutas, de onde saiu essa delirante ideia, e colocou claramente a armadura no corpo para o confronto com o governo, do qual, juro não ser segredo para ninguém nunca gostou. Apenas serviu este falar ao país para advertir o PSD que se quis pendurar nos ramos do coqueiro a que há uns anos subiu, numa cena triste e de apanhados, como a de Soares com as tartarugas, que deixem de o olhar de lado e com desconfiança, e para lembrar ao Governo que ele tem na mão o papelinho que dissolve a Assembleia e nos obriga todos a ir votar outra vez e a aturar aqueles discursos de vitória novamente, sem pingos de inventiva, agora que a RTP se armou em moderna com aqueles quadritos que se vêem nas escolas. Sibilinamente prolongou a dúvida, semeando ainda mais - ia escrever o rato na barriga, mas a imagem está gasta- abrindo o flanco para as farpas do governo que chegaram tarde demais, Cavaco já tinha tirado a gravatinha azul às bolinhas, vestido o pijama e já se preparava para sorver o leitinho quando Silva Pereira enfrentou as câmaras de TV. Esqueceu-se foi de tentar acenar com a bandeira branca, acirrando ainda mais o discurso numa guerra de alecrim e manjerrona que pode rebentar quando Cavaco quiser. É ele quem menos tem a perder, porque palpita-me, até vai colocar o ponto final na sua vida política no fim deste mandato... e gozar Alegremente (desculpem-me falar aqui dele) o resto dos seus dias a cuidar dos netos....

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Querida Mirita

Parece que é hoje! O nosso PR vai recuperar a voz- terá tomado cházinho com casca de cebola, como a tua avó com astúcia nos ensinava a fazer naquelas tardes em que suávamos as estopinhas nos quentes jogos de futebol de fim de estio- e falar ao país. Desconfio, depois de o ter ouvido sábado e no domingo, que se estivesse mais perto do Magusto que chamava um desses vendedores de castanhas a Belém e enchia a boca na hora de enfrentar os malandros dos jornalistas que teimam em colocar-lhe as perguntas mais incómodas. Afinal não saberão eles que o mais alto-ora aqui está uma questão que preciso de confirmar (já chamaram isto ao Sampaio, e eu que me cruzei com o nosso ilustre advogado na ponte da praia do Gigi, constatei que poderia facilmente se o João César Monteiro assim o entendesse contratá-lo para um dos anões da Branca de Neve, sempre era melhor do que pintar de preto a tela durante hora e meia, digo eu que até gosto de cinema)-magistrado da Nação é um rapaz que alimenta faustamente os tabus? Foi assim enquanto era líder do PSD e na indecisão decidida de se candidatar a Belém, numa rumagem para ver como paravam as modas, ao estilo do futuro inquilino a mirar a casa que irá ocupar, foi conhecer os cantinhos à casa, talvez concluir que coqueiros e marquises não ficariam muito favorecidos, no palácio cor-de-rosa. É mesmo preciso não ter tido o deleite de ler aquela autobiografia, um pouco pirosa na capa, mas isto já parece ser uma tarefa homérica para alguns repórteres, e comentadores, tão comedidos que andam nesta vitória parcial de Sócrates, que de extraordinária nada teve, apesar dos esforços que o nosso chefe do governo em convencer as pessoas do oposto. Todos, incluido Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira- quando for grande vou deixar crescer a barbita assim, um pouco rala-jamais ousaram desacreditar esta verdade que podia ter sido, caso o líder laranja fosse outro, escrito nas estrelas. Fálo desse Zé, que anda com esse sarilho chamado Europa às costas, como podia falar do Manuel, e aqui encaixa o Jesualdo Ferreira, o Barrabás do futebol português, agora que Jesus vê os seus rapazes colherem e multiplicarem por muitos os golos. Foi uma mão cheia na rede dos homens do Mar, horas depois de o dragão se ter encolhido na segunda parte perante o rugido tímido do leão. Começou com a pata esquerda, o rei dos animais, mas depois ensaiou os rugidos que ouvíamos nos filmes, lembras-te? Mas a garganta estava rouca e faltava-lhe convicção, como ao Cavaco para falar desde Agosto... O Paulo Bento, aquele com o penteado que tu odiavas e aquela vozinha firme com sotaque aprendido enquanto pedia caramelos a uma empregada espanhola cheia de salero, e que gosta tanto dos árbitros e de vociferar até entra em campo para os convidar a irem cear depois do jogo a Matosinhos, que a noite até estava quentinha, reflectindo em conjunto em quem deviam pôr a cruzinha no dia seguinte... o Duarte Gomes, um rapaz da Madeira emigrado para Lisboa sentiu-se asfixiado democraticamente e expulsou o treinador... Enfim... É verdade, a Manuela Leite também fez o mesmo ao Passos Coelho e agora vamos ver se a faca do eterno candidato- não, não é o Garcia Pereira- estará bem afiada ao estilo do Robespierre na noite a seguir às autárquicas. Ontem em Paredes lá mostrou a vontade de encostar a adversária à Parede, sem ter necessidade de chamar o Marco Horácio, que fala que se farta e berra muito, porque eu ouço-o a debitar alarvidades da televisão do meu vizinho. Se o Rio não meter água e a noite não for de Flopes- perdão Lopes...- é bem provável que a laranja tenha outro sumo.... A carta já vai longa, mas tu já me conhecesses sabes que não me calo, falta aqui falar do Paulinho, um dos vencedores da noite que já não tem um zero á esquerda da percentagem de votos. Chegou aos dez por cento, compensado pelo empenho e litros de suor que verteu na volta a Portugal que deu. Gosto do rapaz. Tem um ódio de morte ao Cavaco, mas já o estou a ver, daqui a alguns anos juntamente com o Marcelo a comer uma vissiychoise da paz, geladinha como convêm para alegremente fazerem as pazes.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sei quem ele é
é um "PR" que se esqueceu
quem favores lhe mereceu
pois toca a "expulsar"!
O seu amigo
que ao longo da campanha
o ajudou na façanha
de o bem publicitar
O mais espantoso
é o ódio incessante
que dedica melitante
a um ser peculiar
Mário Soares- o "pai" da Democracia
sem ele o próprio estaria
algures a leccionar
No 10 de Junho
pôs o Alegre Manuel
a declamar 1 papel
só para o contrariar...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Por muitas voltas que dê à cabeça, não me consigo lembrar. Confesso que não tenho a memória de elefante- uma imagem gasta mas que aqui apenas é colocada para citar a obra de estreia do Lobo Antunes, um dos autores odiados das nossas letras, que pelos vistos voltou a apaixonar-se, e que seja bastante feliz é o que lhe desejamos. E que nos consiga maravilhar com a polifonia existente naquela cabeça labiríntica e a arder de chagas da ferida da guerra colonial. Não sei se José Sócrates o terá lido. Calculo que não, embora o livro não chegue sequer às 150 páginas, mas a avaliar pela citação pop cinéfila que fez ontem naquele debate morno como o tempo incapaz de levantar a fervura, esbarrando vezes de mais na deferência com que ambos se trataram e na indelicadeza de mandarem às malvas as regras pré-estabelecidas com a aprovação da moderadora, parece-me que não. Confesso que nunca vi o filme, nem tenciono ver. Já me informei, e parece-me um absurdo. Sei algumas coisas que fiz no Verão passado, como todos, mas ao detalhe sou incapaz de promenorizar. Acho que o programa do PSD oupa mais espaço do que as minhas lembranças do Estio anterior caso as tivesse que verter para o papel. Não me recordo de quase nada. Aliás estou como os ingleses que consideram o passado um armário cheio de caveiras e no qual não se deve mexer. Ao ouvir Sócrates recordar tantas e tantas vezes um governo de coligação onde esteve Portas, confesso que pensei se o nosso primeiro não terá sido visitado pelo fantasma do Natal passado do Dickens, incorporando um Scroodge, o que até batia às mil maravilhas no nome de sr Zangado que lhe deu o seu interlocutor no debate, uma vez que além de nome do anão mais maravilhoso do universo Disney da Branca de Neve, era a descrição perfeita do Scroodge que depois inspirou o Tio Patinhas, o sovina de Patópolis... Pena é que não estejamos no Natal... E as eleições para o nosso 1º não me cheira que venha a ser uma prenda...

domingo, 30 de agosto de 2009

São mesmo sacaninhas

Quente e frio, amargo e doce. Quatro palavras bastam. "Fotografa-se" um filme e negam-se velhos tratados. Numa imagem que pode não ser de todo perfeita mas que elucida, Tarantino foi chocolate quente e a plateia gelado de limão. Derreteu o primeiro, ganhou um doce a segunda. Merecido.
À Tarantino. A impresão digital do realizador marcada e vincada desde a aurora do filme com um sublime diálogo de fazer arrepiar o mais empedernido, piscando o olho ao espectador, seduzindo-o logo no primeiro olhar, naquela ânsia enrolada de quem se interessa e quer saber, levando à certa e para a doce névoa da ignorância o interlocutor astuto para deixar no ar a iminência de poder vir a tomar o jogo nas mãos. Aquele ar morno de brisas, poliglota do "caçador" já por si valeria o preço do bilhete com pipocas incluídas no embrulho da sedução.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Luz intermitente guiará águia para a glória?

É verdade e não merece discussão que a goleada gorda- à moda antiga- num regresso esperado ao passado glorioso que alimenta ainda, tantos anos volvidos, o ego encarnado, faz renascer o sorriso e recuperar a vontade de ganhar e de gritar aos quatro ventos a plenos pulmões: "Sou do Benfica", que ultimamente tem sido confessado numa surdina quase muda. Manda a prudência num dos seus mandamentos que se recorde e com algum respeito a fase embrionária da época, ainda pouco rabiscada no terreno para deixar de ser projecto no estirador do técnico. Esta águia, promete, tem vontade, parece ter capital humano para se transformar numa certeza, mas a verdade é que um balde de água fria seria bem vindo agora, para caso as coisas não continuem no trilho certo, a paixão arrefeça e o toque de desmobilização tome conta dos seus indefectíveis. Objectivamente o Benfica fez o que lhe competia, está com pé e meio na fase de grupos da liga Europa, e no Campeonato esbarrou na falta de pontaria e nas luvas de um guarda-redes que transformou os acordes da vitória quase certa no bailinho do empate que comprometeu os três candidatos ao título, permitindo que o Braguinha respirasse solitário os ares da liderança. O leão medroso à imagem do que fez companhia a Judy Garland no "Feiticeiro de Oz", tolhido e de garras escondidas na choupana não resistiu ao voo mortal da borboleta roxa com ajuda de uma estranha mão russa que transforma num pesadelo a viagem à Florença de Dante e onde morou em tempos idos Rui Costa, e onde uma Helena Bohaman-Carter quis um dia ter "Um quarto com vista sobre a cidade". Nuvens carregadas na cidade do Arno para a continuidade entre os maiorais na Europa do vice-campeão luso. Grande Nacional, atropelou o Sporting e atingiu o seu Zénith com esta vitória amarga pelos golos que encaixou que tornam esta vitória num amargo de boca.
Exma sra dra Manuela Ferreira Leite;

O meu dever de eleitor interessado obriga-me a escrever-lhe esta carta. Não tem conta as vezes em que encostei o telefone ao ouvido direito e tentei falar-lhe para o seu call center. Duvidei da seriedade dos seus funcionários quando um após o outro, lá me juravam a pés juntos, de voz embargada, que não era possível falar consigo porque não trabalhava lá ninguém com esse nome. Não queira saber os impropérios que mentalmente usei para classificar esta situação inquietante para mim. Logo eu que pouco tempo concede à publicidade, olha de esguelha para os anúncios, tinha sido vítima de mais um logro. Acredito que a situação seja explicada devido ao medo de podermos ser escutados- não foi a senhora que disse um dia que o silêncio é de ouro?- uma preocupação ao que dizem já ter chegado a Belém a ponto de estar a deixar o nosso Presidente desorientado com aquilo que o Governo lhe anda a fazer. Ia acrescentar não é só a ele, mas ao país, mas podia correr o risco de ser mal interpretado e depois ter o dr Pacheco Pereira a falar de mim, o que não quero muito, por preservar e bem a minha individualidade... Não ligue muito ao dr Passos Coelho que ou muito me engano ou trilhará um caminho semelhante ao seu homónimo do PS, que ficou com orelhas tipo Dumbo e não à Bugs Bunny, esse coelho imortal que nos fazia rir, depois de se terem descoberto algumas roedelas nas urnas feitas por "ratinhos" estranhos ao la(r)go rosa. Meteu água e agora constrói pontes e estradas, caminhos de alcatrão e não só neste país de betão. Penso que nesta altura esteja a escrevinhar a folha A4 em que colocará todas as ideias para o seu programa eleitoral- uma formalidade chata, para entreter jornalistas e analistas, que passam por lá os olhos, enquanto o povo lá vai devorando os livros do Sousa Tavares e da Rebelo Pinto, entre uma sande e um mergulho, na toalha do desencanto, com as banhas à mostra. Desvantagens de um país de tanga... Confesse, quantas folhas rasgou? Quantas promessas encalharam no crivo da máquina da verdade em que se quer transformar? Se ler a Bíblia, acredito que encontrará a passagem em que Jesus Cristo se engasgou quando Pilatos, esse traquina que lavou as mãos (o que dá jeito agora com a gripe que prolifera pelo Mundo) na hora de o condenar) lhe perguntou a definição de verdade. Confesse que já se arrependeu dessa promessa, mas como diz um amigo meu, promessas leva-as o vento. Não perca a esperança de ver a rosa murchar e não florir nas urnas, o seu irmão, esse leão de gema pode ser-lhe útil nos conselhos que pode deixar, já que desespera há tantos anos por ser campeão e tem de se contentar com o insosso segundo lugar, uma posição que um treinador de futebol há muitos anos baptizou, com razão, de o primeiro dos últimos. Fiquei triste devo confessar com esse abrir de Porta(s) a uma possível coligação com o CDS, desse Conde de Abranhos, perdão Paulo Portas. Devo ter de inquirir o Pacheco Pereira, tão preocupado que está com o Preto que lhe como sabe é uma cor que nunca sai da moda mas desaconselhável por aquecer ainda mais em dias de Estio, e proibida na lista de cores dos estilistas.... imagino que deixará a cabeça a latejar nada que uma aspirina não resolva... Agora, tenho de a deixar, porque acredito que não tenha muito mais tempo para me dedicar. Espero que tudo lhe corra bem... Um forte abraço...

O telegrama e o canário

Não sei se muitos dos jornalistas conhecem- acredito que sim- esta história maravilhosa que Nélson Rodrigues, um dos maiores jornalistas desportivos do Brasil gostava de partilhar com os seus leitores. Vou contá-la porque a acho deliciosa, se não me levam a mal. Um repórter foi chamado para ir cobrir um incêndio. O jornalista nada vê de anormal, é um incêndio rotineiro, igual a tantos outros, as labaredas desfaziam bens pessoais, nada de significativo havia. Qualquer regador ou uma mangueira seria suficiente para matar as chamas. Volta o escriba desiludido para a redacção e abre a boca de espanto ao saber que o jornal dedicará uma página ao sucedido. Revolve os apontamentos, dá voltas à cabeça, e em desespero de causa, lá faz sair da sua imaginação para o papel um humilde canário que morre cantando. No dia seguinte, o país inteiro chorou em uníssono a perda do bicho. Cada vez mais me convenço que jornalismo necessita de alma e de sentimento e não daquele empedernido ar altivo esfingico do rigor numérico. Mas sempre respeitando quem escreve e para quem se escreve ou fala. Ate porque a maior resposta do jornalista é ser o olho clínico do receptor que quer estar no local, onde tudo acontece. Tem a bomba atómica que pode fulminar as carreiras jornalísticas: simplesmente basta deixar de o ler... E isso deve vir à tona, deve estar bem presente na mente de quem exerce a profissão...não trair a confiança ou a curiosidade de quem fica e se interessa por saber...

terça-feira, 28 de julho de 2009

O riso agudo em sonoridade estridente da cruel madrasta da Branca de Neve depois de a pobre rapariga ter mordido a metade da maçã carregada de veneno, denunciavam-lhe as intenções. Os arrepios soltos, metem medo mal a silhueta se avista. O papel de megera assenta-lhe como uma luva num vestido de cerimónia. Arranja o cabelo com a palma da mão à medida que se insinua em passo decidido, olhar melifluo e voz cantada. Por muito que tente, por muita maquilhagem que ouse colocar o seu visual ficará sempre o mesmo.

domingo, 26 de julho de 2009

o país virtuoso da inveja

À mesa do café, espremido entre o corpo alheio, sentado ou em pé, o país indevidamente roí-se de inveja. As unhas já são poucas, sobra cada vez menos carne para levar à boca. Aptidão demonstrada em certificado rubricado pela mão própria ou pelo punho bajulador de quem espera algo em troca, vandaliza a competência esquecendo-se de referir por vezes a falta dela, trazendo elogios descabidos à discussão. Quantas conversas marginais, especialistas na maledicência, que inventa qual professor Pardal, argumentos para que a promoção que foi parar ao colega do lado, um chato e que até não cumpre horários nos devia ter vindo ter às mãos; que a bela rapariga que se delicia na companhia de um rapaz saído de um catálogo de culturismo devia trocar connosco gestos românticos, que aquele inquieto Euromilhões era a nós que nos devia sair e não a outros, incultos e que não sabem o que fazer com tanto euro; que aquele carro belo e caro que passeia no asfalto ao nosso lado, roncando a sua força cavalar ao nosso lado devia estar na nossa garagem e não na do serôdio motorista de óculos fundo de garrafa e cabelo sedoso pela brilhantina? É um pouco assim que anda o país, a olhar ou a querer admirar o seu próprio umbigo em vez de tentar concertar aquilo que de mal tem e acontece.... Maldizer a sorte, profanar contra os azares que lhe acontecem não são remédio fácil para o curar...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A minha caixa de correio tinha ontem um postal de Narciso. Simpaticamente escrito, com uma letra desenhada- aproveito desde já para enviar os parabéns à professora primária-, aquele texto multiplicado por milhares de cidadãos tem lá uma parte que me deixou inquieto e a meditar. "Passámos muitos Natais juntos". Confesso que desconhecia ter partilhado o bacalhau, as couves, as batatas e os doces, com tão ilustre família. Uma rápida consulta familiar desmentiu esta ideia, uma artimanha da prosa para dar uma certa familiaridade e tentar aproximar candidato de eleitor. Uma simpatia política que só surgue quando o voto se aproxima, e confesso que me parece que os arquitectos de marketing e os autores dos discursos andam atacados por uma preguiça terrível. O calor dilata os corpos, apetece cada vez mais ser como a Deolinda que só fazia praia à sombra com medo de engordar...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Antes de os índios serem maus, gostava muito do general Custer. Um guerreiro fantástico, autor de massacres inúmeros aos índios sioux, que me enlevava pelo chapéu à cowboy e o bigode farfalhudo, e uma farda azul que fazia a inveja da minha pobre indumentaria. Tantas e tantas noites sonhei em ter uma fatiota daquelas e em puder empunhar a bandeira numa mão e a rédea do cavalo na outra. Nunca percebi muito bem como é que ele conseguia matar os índios, mas de alguma forma os abatia, ou não conseguiria ter a fama que teve. Eu, lá no meu quintal, ensaiei diversas vezes. Montado no tronco da vassoura, porque cavalos eram proibidos devido ao preço, treinava a pontaria à macieira do vizinho, que era um ranhoso. Um dia, a brincadeira acabou mal, porque danifiquei a horta que por lá havia e a semana que passei de castigo fez-me toldar a bravura e ganhar algum juízo. Um abalo profundo. Imagino que os soviéticos tenham sentido o mesmo quando viram os americanos espetarem uma bandeira com estrelinhas e riscos em solo lunar. Tentei convencer o meu primo Luís, que o feito se devia ao seu aniversário. Era no mesmo dia, é verdade, mas era difícil de acreditar que o caminho para o espaço se tenha aberto devido a um festejo de aniversário de um rapazito que tinha tirado uma porta a um frigorífico velho esquecido num recanto do quintal, para tentar rasgar as fronteiras espaciais. No meio do congelador ia um lenço, roubado à socapa da gaveta do meu tio com a palavra P, a rebentar de patriotismo. Era Portugal a mergulhar no nacionalismo, embora confesso, tivesse a atitude daquele velhote que Camões idealizou e cantou ao ver Vasco da Gama meter-se numa caravela e rumar até à Índia. Convenci-me que os americanos tem tudo. Um nadador fantástico, como houve poucos, o Mark Spitz que parecia que corria nas piscinas a cada braçada que dava- é certo que agora anda um australiano a maravilhar o Mundo, um autêntico tsunami que arrasa corações e adversários- ganhou ainda mais glória e não fosse este orgulho em ser português, acho que me tinha aventurado na lonjura do Atlântico e mudado para lá. Aqui há uns anos quando a poderosa América levou com aquele hediondo acto terrorista, o Mundo virou-se do avesso para lhe estender a mão, apontando o indicador bem firme a um Bin Laden, autor de uma chacina sem precedentes para levar a cabo uma guerra que de santa tem muito pouco. Aquela barbita e aquele turbante tem algo de comum com algumas figurinhas mais bem comportaditas deste nosso país. Terei de perguntar o paradeiro a esse autêntico génio da análise política internacional chamado Octávio Machado que afirmou a plenos pulmões saber onde andava, isto depois de ter deixado dois pontinhos na Luz...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ninguém no país é capaz de imaginar a força persuasora da cerveja e dos tremoços em simultâneo, que fucionam um pouco como os espinafres para o pobre do Popeye, marinheiro de água doce que fez algumas delícias nas tardes de canícula dos Verões da minha juventude. No café central, que funciona um pouco como o eixo do meu mundo, o meu grupo de amigos tentou convencer o Tó a desistir da ideia de deixar a nossa equipa de futebol de bairro. Não que fosse um daqueles jogadores de mão-cheia, dotado de uma técnica valerosa, mas era dos poucos que tinha sapatilhas, o único com uma avó rica, o que era fundamental e útil para comprar uma bola nova ou até em caso de derrota, para o pagamento do prémio ao adversário. Jogava-se a dinheiro e é fácil de perceber que nem sempre as coisas acabavam pacificamente. Muitos dos problemas e das disputas foram resolvidas com pontapés à karateka e bofetadas de mão aberta e com o cascalho que ali havia, e que era um poderoso auxiliar. Convencemos à custa de diplomacia, e de muitos litros de cerveja e de incontáveis pratos de tremoços o Tó a revalidar a fidelidade à nossa equipa. No dia seguinte, foi um problema, porque o acordo de cavalheiros tão difícil de alcançar parecia ter desaparecido por completo da memória do Tó. Saiu-nos caro, mas foi óptimo no futuro imediato.
Aqui há uns anos, um problema parecido foi resolvido com queijo. Mas tem um problema: comendo queijo esquece-se rapidamente. Palpita-me que foi por isso que Guterres, qual ratito maroto se esqueceu da sua paixão pela educação e de outras coisas mais que tinha prometido ao povo cansado da laranja e do seu sumo amargo. Campelo percebeu e defendeu a terra onde era autarca à custa de encher de queijos a dispensa da na altura segunda dama da nação, D. Catarina. Helena Roseta, parece-me um pouco como Guterres: esqueceu-se muito facilmente do quanto aborreceu o PS. Voltou as Costas- e juro que não é trocadilho...- e mal apanhou a rosa meia murcha e em sobressalto volta a estender-lhe a mão...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Antes desta histeria à volta da gripe que já foi suína, mexicana e que agora é A, o Mundo era mais feliz. A Branca de Neve pode ser beijada sem reticências pelo princípe, a Cinderela não estranhou quando a cara-metade sem pedir licença se aproximou e colou os lábios aos seus, e até a Bela- que talvez fosse a única que se safasse se vivesse agora, porque é quase uma heresia pensar no Monstro como um provável contagiado, tão solitário parece ser- não pensou duas vezes em consumar o seu amor correspondido. E fez bem, se me perguntam a opinião. Não sei se a Etelvina pensa o mesmo que eu. Ela, a pessoa em quem todos apostavam como candidata a santa, com altar quase pronto na basílica de S. Pedro, provou que afinal as aparências iludem. Nasceu para o amor naquela camioneta laranja estofada de roxo que levou grande parte da rua numa excursão demorada a Lourdes, numa estrada polvilhada de fé e de algum cepticismo, como o caso da Etelvina, que nunca acreditou em Deus, fosse ele quem fosse. O Macário, bombeiro nas horas vagas do emprego de marceneiro, um dos mais bem-parecidos solteiros das redondezas há muito que havia fixado aquele rosto sardento e onde brilhavam dois olhos negros como ébano e cujos lábios rosados faziam a delícia de todos quantos lhe ofereciam motivos para ela os abrir, num sorriso meigo e palavras delicadas. O destino caprichou e juntou-os, obrigou-os a partilhar a merenda e mais do que isso, meses mais tarde, dividiu entre ambos a gestão de um T3 mobilado do melhor, dispensando os catálogos que se atulham lá por casa de IKEAS e similares. Naquele passeio, não tiraram as mãos um do outro, como se fossem parte de um laço que depois prolongaram com votos escutados pela rua e arredores. Ainda hoje são a imagem do casal feliz, alimentada pelo nascimento de 3 filhos, todos em escadinha, a quem ensinaram a lavar sempre as mãozinhas, pelo menos antes das refeições e sempre que chegassem a casa, e a beijar o menos possível, mantendo distâncias...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O sonho renovado. A legitimidade perdida e derretida pelos traiçoeiros destinos impostos pela perícia ou falta dela nos toques, afagos, ou meros pontapés sensaborões, num pedaço de couro que leva a plateia ao rubro e uma tribo inclemente ao êxtase ou à transe de uma depressão mal curada. Qual injecção de optimisto bombeada por todo o corpo, esquece-se o passado menos feliz, as vezes em que não segurámos na porta do elevador à menina do 5º esquerdo, os dias em que de cara enrugada e impropérios a baloiçar na ponta da língua, servimos destemperos aos colegas de escritório, para voltarmos a sonhar. Nas asas do optimismo, à boleia das capas sorridentes, dos presidentes felizes e jogadores maravilhados, num beco do país das maravilhas, que se a sorte não se aliar à vontade, reconvoca os insitintos assassinos da rainha de Copas, exigindo sumariamente a cabeça a quem esbraceja para dentro do relvado: o treinador, o elo mais fraco de toda a cadeia, mesmo que não lhe seja permitida a honra de chutar as bolas durante a hora e meia de paixão, volta-se a sonhar, tatua-se a palavra campeões, enquanto torramos no sol do Verão, ou nadamos na praia, e entre um por-do-sol regado pela bebida ou uma partida de sueca, lá voltámos a conversar sobre o clube que nos preenche o coração, os reforços que podem ajudar, aqueles que julgámos não sentir a tristeza do adeus, mergulhando na falível previsão dos 8 meses que vem ai. Vestimos a pele do astrólogo, o tal que tantas vezes satirizamos ao vê-lo, com ar de profeta das virtudes, na televisão, dizer umas coisinhas que nada têm de verdadeiro....

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Lá de longe, muito distante, D. Birgolina jurava a pés juntos em gritos tísicos que havia várias traições conjugais na rua. Sempre que por perto dela passavam, erguia os dois indicadores descaía-os à altura da orelha, flectindo-os para a frente, acompanhando a expressão visual com palavreado menos conveniente a ouvidos menores, como os nossos, que aproveitávamos os caixotes da fruta para fazerem de postes nos nossos jogos de futebol quase sempre jogado em sarapilheira. por uma questão de nobreza, justificava e repetia D. Birgolina. De modo a que todo o Mundo soubesse que a fidelidade do casamento não estava a ser levado muito ao pé da letra pelo menos para que o infiel soubesse que a facadinha matrimonial estava já a ser descoberta, num aviso para optar por outra estratégia, que podia passar por encontros em moteis, ou em casas de amigos. Não havia patranha que escapasse aos olhos sábios da vendedora de fruta que orgulhosamente tinha a quarta classe e era solteira. Não sei se na vida de Manuel Pinho houve alguma D. Birgolina, ou se o até ontem ministro da Economia quis insinuar alguma coisa sobre a vida conjugal ou extra, é melhor escrever assim do deputado Bernardino Soares, que alegadamente chamou mentiroso a quem tutelava a pasta da Economia. Um insulto gravíssimo, ofensivo, ouvido tantas vezes no trânsito e não só, tirou Pinho do sério. Imagino que quando passeava pela feira de calçado em Milão, tenha feito algo parecido ou dito ao ver que afinal os sapatinhos portugueses são mais bonitos e até confortáveis que os italianos, com que queria percorrer em passadas longas os corredores do Ministério ou de lá de casa; pelos vistos de nada valeu a ajuda do consultor de marketing que contratou há cerca de dois aninhos, incapaz foi de maquilhar alguma pouca habilidade para a política, num jeito que me faz lembrar o seu ex-colega de governo Correia de Campos, incapaz de perceber que às vezes o silêncio é de ouro, ou se quiserem de platina. E já agora, as mãos também comunicam, senhor ex-ministro... A mim pareceu-me foi que quando no Verão passado esteve com Micheal Phelps em Vilamoura lhe perguntou como podia ir ao fundo....

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Todos os anos, o ritual tinha a solenidade de uma oração. Naquela folhinha azul de 25 linhas tínhamos de escrever o que achámos dos professores, das aulas e da escola, num exercício que contemplava ainda a escrita da classificação final que nos atribuíamos a nós mesmos, num exercício difícil se não fosse feito com a displicência de quem não o levava a sério. Teve dias que considerei aquilo um autêntico absurdo, que estava a fazer o trabalho dos professores. Era como se me pedissem que escrevesse o enunciado do teste, o resolvesse e depois pegasse na caneta encarnada para o classificar. Com o correr do tempo, achei graça e encarei o desafio como uma proposta de negociação entre o aluno e o professor. Escreveria a verdade e pediria a nota que achasse mais justa face ao desempenho que obtive no período académico. É um pouco como o político e a campanha eleitoral, com a agravante de poder levar chocolates ou flores ao professor, num acto a que lá em casa nunca acharam grande piada por considerarem susceptível de algum suborno. Hoje, senti-me como um aluno ao ver o debate da Nação, que mostrou a habilidade manual de Manuel Pinho, esse político não profissional que fez um gesto feio a uma bancada parlamentar com quem estava a trocar umas palavras pouco correctas, demonstrando uma rara habilidade de manejo dos indicadores, que por várias vezes já o haviam traído. Na altura, pareceu-me que o gesto se devesse à tentativa do ex-ministro da economia de convidar para uma tourada, mas rapidamente fui demovido dessa conclusão ao ouvir a insistência dos colegas de profissão que durante o resto do debate só falaram nisso. Não sei honestamente como classificar este debate, que antes já tinha visto a reprimenda do mestre-escola Jaime Gama a Paulo Rangel e ao inefável ministro Santos Silva... Não gostei também de ver o vestido da deputada Apolónia...

domingo, 28 de junho de 2009

ao dr. Paulo Rangel

A última vez que escrevi uma carta assim recebi em troca uma grande decepção. Deve lembrar-se daqueles papeis perfumados a alfazema pautados de cor roxa que em baixo tinham vários desenhos de corações. Com a ingenuidade de 8 anos a falar mais alto, rabisquei o melhor que sabia um deles: "Queres namurar comigo?", assim mesmo, com o erro ortográfico saliente em cima dos dois quadradinhos feitos a régua com o espaço suficiente para se colocar a opção certa, ao lado da resposta: sim/não. Enchi-me de coragem e deslizei o papel dobrado impecavelmente para a carteira da Tininha. No intervalo recebi a resposta: "a minha mãe diz que somus muito novus", com uma letra impecavelmente desenhada que fazia corar de inveja a minha caligrafia que sempre teve tanto de indecifrável, mesmo para mim. Não queira saber o quanto chorei nos dias a seguir, emagreci é verdade, parecia-me ainda mais com um palito ambulante, mais osso que pele. Nunca compreendi muito bem este não, apesar de lá em casa me terem tentado explicar pacientemente que há ganhar e perder, e das virtudes de esperar. Imagino que o sr. actualmente não tenha estes problemas, ainda saboreia aquela vitória que deu azias a quem faz sondagens e aos moradores do largo do Rato, nas Europeias, que o vão levar para longe de nós durante alguns dias, para essa Europa que muitos defendem mas que em rigor poucos percebem muito bem para que serve. Livrá-lo-emos também desses debates quinzenais com o Primeiro-Ministro, onde o ouvimos várias vezes ressuscitar a figura do 2 caras, que confesso, já me cansa um bocadinho. Primeiro porque era um chato nos livros do Batman que devorei enquanto criança e em segundo lugar de tão repetido o sound byte já se torna enfadonho. O mais importante é que olho para a cara de Sócrates e não a vejo mudada. O nariz continua o mesmo, o tal que alguns consideram poder rivalizar com o do Pinóquio, o cabelinho cada vez mais branco, e tirando alguns quilinhos a menos não consigo encontrar grandes diferenças no chefe do governo. Talvez sejam coisas minhas. Tambem não compreendi muito bem, se já algum dia leu o Conde d'Abranhos do Eça. Se nunca o fez, diga-me que o trago de casa e tenho todo o prazer em o emprestar. Há de por lá encontrar alguns amigos seus, embora acredite que já tenha devorado o livro, que o senhor é todo dado a leituras. Sei que ficou zangadito com esse eterno trepador de coqueiros chamado Cavaco Silva, que não vos fez a vontade de juntar as eleições de autarquia com as legislativas, em nome da contenção de custos. Mas peço-lhe que o perceba. Afinal de contas, poderia dar azo a que os comentadores andassem uma semana inteira a criticar o nosso Presidente por ter ido a reboque de uma ideia do partido do coração, e em Belém, os corações tem de ficar bem longe, que o diga o ex-presidente Sampaio... Espero que lá por Estrasburgo não abuse na papa Maiezena, essa traquinice do ministro Pinho, que de forma subtil lhe quis chamar gordinho e algo para o baixinho. Teve piada, tem de reconhecer, embora tenha sido algo brejeiro no modo como falou de si. Mas não ligue. Também não sei se o ouviu, imagino que não. Palpita-me que muda de canal sempre que alguém do partido rosa fala ou o dr. Passos Coelho, que qualquer dia vira Dumbo tamanhas desconsiderações andam a dizer nas suas- dele- orelhas. Oxalá não tenha levado a mal a ousadia desta carta, um abraço forte

terça-feira, 23 de junho de 2009

Nunca terá perdão o ranhoso do automobilista que, há uns anos, levou na frente do carro a bola de borracha preta, única na zona, que comprei na Alemanha e que pinchava tanto, tanto que galgou o portão de ferro da rampa onde fazíamos os jogos fantásticos , principalmente os Portugal-Espanha, armados até aos dentes de orgulho lusitano, valorosos descendentes de D. Nuno Álvares Pereira que despachou os espanhóis em Aljubarrota com a táctica perfeita do quadrado, por isso fosse como fosse, os espanhóis tinham sempre que perder. Era uma questão de honra e de patriotismo. Também foi azar. Passava um carro de cada vez, muito de longe a longe, e tinha que ser dessa vez, a bola a pinchar para lá do portão e o carro a levá-la na frente, um poc-poc muito seco, da bola trilhada entre o guarda-lamas e a roda de trás. Aquela era a rua central de Leça, onde ainda não havia as chaminés da Sacor e entre ali e o mar impunha-se um arvoredo imenso impenetrável em alguns casos, a pessoas mais sensíveis. Acho que até se conseguia ouvir o respirar do outro lado da terra, onde começava Matosinhos. A Sacor entrou pela infância dentro e levou-nos o espaço de pousio para as nossas brincadeiras de índios, substituindo os maus por outros, mais reais, e que dificilmente sucumbiriam aos tiros de espingarda de paus trabalhados a canivete. Imagino que Narciso Miranda nunca os tenha ouvido. Devia andar de calção à italiana, laçinho- parecia o Zé Maria a sair da casa do Big Brother- pelas ruas de Barroselas a perguntar-se como chegaria a ser alcaide.
Um dia, chegou o 25 de Abril, as eleições, o poder autárquico, a que Narciso haveria de chegar, quando ainda era funcionário da EFACEC. Com mérito e bem apoiado por um partido que pintou o país, primeiro de vermelho, depois de rosa, e agora de um rosa falido de brilho, quase a desmaiar para o laranja. Os matosinhenenses habituaram-se a elogiar-lhe a tenacidade e perdoaram-lhe aquele intervalo em Lisboa, onde aliás não se deu muito bem com as obras do Terreiro do Paço, ainda que por lá haja buracos remendados, que nunca atingem as suspensões dos carros dos autarcas( os autarcas sabem sempre onde estão os buracos, vantagem em relação aos munícipes), que já tem o cotovelo sem feridas depois daquela queda que Gomes, o seu (Gas)par e um Coelho protector o obrigaram a dar, naquele dia em que caiu também a ponte de Entre-os-Rios.
Narciso tem direito a uma vaidadezinha, é verdade. Fica-lhe mal é tentar levar à letra o seu nome de baptismo e as características lendárias. O seu amor não correspondido pelo Porto é ainda mal assumido e digerido por alguns dos cidadãos, e era bom lembrar-se como acabou o Narciso da lenda...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Bla, bla, bla, que assim está em muitos balões dos livros do Tio Patinhas, inspirador de alguns dos magnatas do nosso reino à beira-mar plantado. Que os há, e basta vê-los nas revistas que se dedicam ao jet qualquer coisa nacional, com aqueles sorrisos que se vêem nas fotos, ficamos todos com a ideia de que os fotógrafos são rapazes cheios de piada. Sei por experiência própria, porque conheço alguns deles que não é bem assim, que raramente contam uma anedota, e que portanto as nossas excelsas figuras riem ou sorriem na esperança de que algum dentista veja aquelas dentições e num acto de caridade ofereça um branqueamento ou tratamento gratuito das cáries, de modo a que as bocas importantes estejam um primor na hora de enfrentar as objectivas. Bem sei que todos temos a liberdade de sorrir para onde e para quem bem queremos, aliás se não houvesse liberdade, o Saramago era obrigado a pontuar os livrinhos como deve ser, como lhe ensinaram na escola, e não dar aquelas dores de cabeça aos meninos e meninas que hoje de manhã se entreteram com um exame de Português que até era fácil. Não sei se a reunião de ontem do PS fez rir José Sócrates ou se o nosso primeiro teve de manter o ar cincuspectro de quem não percebeu muito bem se foi o povo na urna ou no quente do seu lar quem derrotou o candidato que mais parecia o Gepeto do Pinóquio, um bonequinho que desde cedo quis largar os fios e ganhar vida própria e foi o que se viu. Talvez, agora seja necessário, voltar a pensar na estratégia, em voltar a ouvir os discursos do Presidente da República que lá voltou a tocar nos espinhos da rosa, para que o povo acredite novamente. Insistir na maioria, por muitos sorrisos que se trabalhem não pode chegar... E prometer aquilo que não pode cumprir, pode ser fatal para essa estratégia de vitimização que trocou alguns nomes nas coordenações, como se algumas chicotadas psicológicas garantissem pontos neste caso votos...
Estamos excitadíssimos, caro Luís Filipe Vieira. Aqui na pensão já tínhamos combinado fazer um magusto pelo S. João- compreenda a originalidade da coisa, o país afinal também é fértil em originalidades- e resolvemos antecipá-lo para ontem. É certo que deixámos de ouvir por algumas horitas a teoria enfadonha do dr. Constâncio sobre a estabilidade do sistema, creio que ele não nos levará a mal, nem o dr. Nuno Melo, esse paladino da palavra que gastou uma fortuna em malas nos chineses, pode opor-se a esta nossa singela celebração. Afinal de contas, vejo que é um homem de palavra. Disse que iria consultar a família e -lo, numa rara demosntração de ternura familiar que nos tempos que correm nos obrigam a elogiá-lo. Não sei se é por ver concretizado o desejo mais permente de qualquer bom cristão- que sonha como sabe em ter Jesus consigo- que não levo a mal aquela traquinice de reduzir o tempo para a oposição se organizar. Sabe como eu que ser candidato não é decisão que se tome em dois dias, que é preciso tempo, para alugar o avião, o que é difícil nestes dias de crise, mesmo para quem é director de um canal de televisão, e outros falam muito mas depois na hora de agir deixam a missão para outros. É sempre assim. A acomodação faz das suas. Confesso-lhe que estamos excitadíssimos. Que decida renovar a candidatura a mais alto Magistrado da Nação futebolistica nacional (pelo número de adeptos, óbviamente...) gosto de escrever isto do mais "alto" para provocar aqueles que dizem que o caro presidente fica assim algo para o baixinho ao lado do Pinto da Costa, um rapaz com jeito para a ironia e para a poesia, como bem sabe e que palpita-me deve estar já a combinar com o dr Bettencourt a melhor maneira de decidir qual dos dois será campeão...
Desculpe não o termos convidado para o nosso magusto, mas compreende de Lisboa ao Porto ainda vai um tirinho enorme... e a fome já apertava...

A outra Paris

Ontem, e por mais de três vezes, o telefone tocou. Alarmado, preocupado com o facto de ser um dos poucos escribas deste reino que ainda não se havia referido a essa transferência multi milionária que colocou o actual melhor jogador de futebol do Mundo em Madrid, longe dessa velha Albion onde chove quase todos os dias e tão perto dessa praça de Cibeles onde faz um calor tórrido. Um assunto confesso que me deixa completamente indiferente nunca gostei de ver impregnado em mim esse vício tão portuguesinho de espreitar com os binóculos pelo ferrolho vizinho. Bem como os amassos que terá dado nessa Paris Hilton, a herdeira platinada de um Império. Para mim ,Paris é sinónimo apenas e só da capital de França. A cidade do amor, onde pelas suas ruelas íngremes ou na imponência dos Campos Elísios, um tal de Jean Valejean lutou contra o seu futuro miserável; o corcunda Quasimodo piscou o olho à cigana Esmeralda, ou o rebelde D'Artagnan perdeu-se de amores pelos encantos da doce Constance.
Paris que nos olha de cima e de esguelha do topo da sua imponente torre de ferro, que se banha no Sena, que tem o encanto dos seus quartiers floridos e o romantismo dos bateau mouche dos enamorados visitantes que cortejam os jardins, os monumentos ou os passeios de mãos dadas segurando as sombrinhas de cores desmaiadas, abre as portas de Versailles, onde viveram os delírios de um rei que até se achou o sol, e de um outro que saiu dali para a tenebrosa Bastilha acabando por ficar sem cabeça, tão desgovernado deixou o reino de Luises e de cardeais numa comunhão perfeita de querer e poder, que Napoleão tentou anos mais tardes ensinar a cartilha a um Mundo cada vez menos absolutista. Com a vénia ao senhor Victor Hugo, invejo o Gavroche, o menino pé-descalço que vagabundeava pelas ruelas e becos de Paris à procura da sobrevivência. Apetecia-me tambêm a mim respirar a brisa cálida da cidade nesta jovem manhã de Junho. Não se devem preocupar. É que há algo em Paris que desperta a minha sensibilidade de vidro, mesmo que não goste das pirâmides do Louvre. O Boggart deve ter razão quando disse à Bergman no "Casablanca": "teremos sempre Paris"... Acrescento eu ainda bem... O mesmo aposto não pode dizer o Ronaldo...

sábado, 13 de junho de 2009

Ai Jesus... é preciso sofrer tanto?

Os votos de amor eterno, jurados e benzidos pelo padre já parecem pertencer ao passado não muito distante em que para a posteridade exibiam o sorriso próprio dos felizes. Pareciam talhados um para o outro. Para no bem e no mal, na saúde e na doença, Braga e Jorge Jesus se apoiarem e ampararem. O treinador, devoto da cidade e do clube que ganhou projecção europeia de encantador de uma serpente que sibilava bom futebol e o Braga, agradecido, grato pelo futebol que brotava dos pés dos seus jogadores, que maravilhou a Europa. Mas o aceno da Luz, cortejado às escondidas, com mensagens sibilinas no telemóvel ou nas páginas dos jornais azedou o romance. Condenou-o a um fracasso, que os próximos dias se encarregarão de confirmar. As malas, já Jesus as tirou do sótão, já as fez e tem o cartão de embarque bem visível: Destino Lisboa, a capital dos sonhos, das quimeras do velho império. Um chamamento que não podia falhar. Uma marca no seu percurso de treinador. De apito ao peito comandar a águia na sua ressurreição nacional e quem sabe internacional, depois de se ter provado a veracidade do adágio que desaconselha treinadores espanhóis. Agora, preso pelos valores da indeminação, Jesus prova e faz saber que não é feliz em Braga. Roi a impaciência, tenta convencer, Salvador, o presidente a deixá-lo partir, mas esbarra na teimosia do "sogro" cioso do que é seu por direito...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Gosto de escrever este nome-Portugal. Contaram-me, porque ainda não tinha visto a luz do mundo, de lá em casa ter havido uma festa enorme com direito a jantar melhorado quando os Magriços ficaram com o bronze no mundial de Inglaterra, onde como sabem não faz muito sol. Mas a Inglaterra era a poderosa Inglaterra dona de muitos barcos e que fez de muitos corsários os heróis da banda desenhada. O Kansas Kid, o Bufalo Bill, o Mandrake, o Fantasma eram leituras obrigatórias, o Asterix e o seu bigodinho valente era proibido- não sei se era pelo preço, ou se a história não agradava e o medo que o céu caísse em cima da cabeça não seduzia o dono do capital, ou seja aquele que decidia as leituras que tínhamos. Ainda mal sabia o significado das letras no balão de cada quadradinho, porque juntá-las dava muito trabalhinho a uma cabeça mais voltada para a brincadeira, deliciava-me com a acção. Uma vez de tão entretido que estava a ver as figurinhas entrei de rompante na sala de aula, sentei-me sem dizer bom dia ao senhor presidente do Conselho, cuja importância devia ser enorme, porque dos 25 alunos que partilhavam aquela sala mais a professora, e ele que nem lá estava, era o único com direito a um retrato enorme. Claro que aquilo me intrigava. Uma vez empertiguei-me e tentei saber a se justificação para tal fotografia se devia a tentar disfarçar alguma fenda na parede branca. Recebi um "ele está em todo o lado", como resposta. Calei-me e nunca mais voltei a falar no assunto na sala. O conflito foi terrível na manhã de domingo seguinte, na catequese, quando a menina Rosa, nos explicava que Deus estava em todo o lado. Engoli em seco a vontade de perguntar se Deus e Salazar eram a mesma pessoa, mas pelos dados da catequista não havia a menor dúvida que Deus, pelo menos não era tão vaidoso ao ponto de ter um retrato seu na parede da escola. Achei por bem tentar desfazer o dilema em casa. Percebi que Salazar era um homem de carne e osso, mandava no país, no Ultramar distante onde se combatiam os "turras"; Deus mandava no coração das pessoas e tinha construído o Mundo em seis dias.
Vá lá! Não concordei muito com este Mundo. O Lourenço levava porrada porque ia descalço; o Hugo pagava com reguadas o desleixo nos cadernos; o Joaquim era proscrito da equipa de futebol porque na hora de rematar sentia pena do guarda-redes contrário. Eram os mesmos sempre que eram cortejados pela Tininha e pela Elisabete, os dois borrachos da turma, e os pobres assim o determinavam os professores, deviam ser os mais burros.
Desconhecia, então, que havia pessoas com coragem e que sabiam, que os pobres nem sempre seriam os mais burros. Alguns desses corajosos ajudaram a pintar um Abril com a tonalidade de esperança. Portugal abriu o sorriso e a andar mais feliz. Deixou de ter apenas o Eusébio e o Benfica para se entreter. Os sítios onde nem passavam carros de bois conheceram novas vias de comunicação e as pessoas começaram a ficar mais próximas umas das outras...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Adeus, Rosinha

Nunca gostei de rosas. Assim sem maiúscula, porque não se trata de nome próprio, mas sim da flor. Acho desactualizada e própria de amantes sem imaginação a oferta à pessoa amada acompanhada de palavras lânguidas e de sentimentos confessados ou partilhados. Seja amarela, encarnada, branca ou cor de champanhe, repleta dos seus múltiplos significados que ontem alguns políticos tentaram desvalorizar ao ver no tempo do manjerico e das cerejas o seu perfume esvair-se e a fragância a laranja- um cheiro incomodativo para as mãos- tomar conta do país, num claro sinal de que os ciclos são efêmeros. Leva tempo a aprender, esta lição clássica da política, ao ver Vital e Socrates no palco naquele palanque com um ar carrancudo, mas com palavras onde sibilinamente detectei alguns indícios de mau perder, dei por mim a pensar que nem nos pesadelos mais amargos previram a possibilidade de a derrota ser tão expressiva. Talvez nem sequer tenham rabiscado na véspera enquanto o país reflectia um discurso tão pouco simpático. De nada serve apregoarem aos quatro ventos que ambos perderam, que fizeram asneira, um na escolha o outro na campanha, porque o sentimento que foi visível foi um mero lavar de mãos, estilo o povo decidiu, mas a importância destas eleições não nos faz perder o sono...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O dia dos horrores

A raiva misturada com a amargura, polvilhada com a decepção da vida que nem sempre nos corre bem, o instinto e o medo de criança gaulês que polvilhava as histórias do Asterix e nos desenhava o sorriso de escárnio na boca ao dedilhar as páginas das aventuras: como se fosse possível que o céu nos caia em cima da cabeça. Pressentimentos, sexto-sentido, coisas que acontecem e não se explicam nas teorias racionais da vida. Desde o início que o dia não me correu bem. Acordei cedo, ao raiar da aurora já tinha ouvido a minha alvorada mecânica. Banho despachado, dentes lavados, barba ralada da cara, e pronto para o novo dia. É a rotina mecânica do início do dia. Espreitei a janela. Um céu cor de chumbo, pesado, transtornou-me ainda mais o espírito. Ameaça de chuva a pairar no tecto aberto, dependente dos humores de S. Pedro. Ponho o pé na rua, apalpo o bolso e nada de telemóvel. Esquecido na mesinha de cabeceira, tão silencioso que não me lembrara dele. Voltar atrás, fora de questão. O reencontro teria de esperar e era a forma de marcar tambêm uma mudança nos hábitos impostos pela ditadura do estar sempre contactável. Confesso que fiquei inquieto, o sangue corria a uma velocidade supersónica, bombardeando sem clemência o espírito em rajada com notícias de que menos esperamos. Raramente passeio de mão dada com o telemóvel, nunca trocámos um abraço, temos uma relação mais recatada, mas íntima de conhecermos os nossos limites e de em caso de necessidade podermos contar um com o outro. Às vezes, sou benevolente demais com o seu piar irritante e constante que não nos deixa descansar. Distraído nos meus pensamentos, entro no autocarro. Não lhe olho para o número. Vai deslizando pelo alcatrão na cidade, lentamente, parando de dois em dois minutos, fazendo desaguar dezenas de pessoas e abrindo as portas a outras tantas que como eu tem pressa para chegar. Vou submerso nos transtornos, nas olheiras que não me largam, e que me fazem ser membro honorário do clube dos mortos-vivos, olho de relance para a janela. Bolas! Não era aqui! Enganei-me no autocarro. A cidade atravessada sem necessidade para a ponta por onde não queria passar. Não tenho outra solução senão sair, procurar a carreira certa que me leve ao meu destino. Queria abraçar o mar e vejo olhos nos olhos com o betão armado e os prédios altos cosmopolitas... E sem poder avisar sem ser em sinais de fumo que ia chegar atrasado...

sábado, 30 de maio de 2009

Não sei se lembram do Sinhozinho Malta do "Roque Santeiro". Um verdadeiro pinga-amor, rico no dinheiro e no espírito que sempre que a vida não lhe corria conforme queria ou quando alguém ousava contrariar a sua palavra, rodava a pulseira de ouro que trazia no braço acompanhando o gesto com uma frase que virou moda : "estou certo ou estou errado" e que inspirou os famos sound-bytes que volta e meia ouvimos os políticos repetir sempre que diligentes colegas de profissão espetam os microfones à procura das palavras sábias de quem faz da oratória a profissão. Nunca esquecerei que por causa do Sinhozinho, obriguei os meus pais a inscreverem-me no hipismo, que ficava bem pertinho de casa. Naquele primeiro dia levei uma das primeiras decepções da vida. O meu talento equestre não seria exibido num cavalo igual ao que via Sinhozinho usar e rasgar a galope as pradarias da quinta . De nada serviram as promessas de que mal ganhasse jeito poderia também eu dominar um animaVerificar ortografial igual. O desgosto e o amargo de boca levou-me a preferir o cavalo de madeira, feito com o jeito e a inocência dos 7 anos e com a habilidade precária de quem nunca passou da mediocridade nas aulas de Educação Visual. E porque não adianta recorrer ao eufemismo de facto aquilo era muito mau. O som dos galopes era feito pela imaginação e as pradarias verdejantes nada mais eram que o meu quintal. A pulseira essa, de ouro, roubei-a à coitada da minha avó. Na altura, confesso, não dei nenhuma importância ao facto da personagem usar peruca, porque a minha farta cabeleira não precisava de outro adorno, e até podia ser uma vantagem para mim na hora de namorar com a viuva Porcina, a amante de Sinhozinho, que jurei lá em casa e na rua havia de ser minha. Infelizmente o destino trocou-me as voltas, a viuva ficou com Sinhozinho e ao que dizem vivem felizes até à eternidade.... E eu que lhe iria fazer uma proposta irrecusável...

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Um dia, quando menos esperarem, vou-vos falar do Armindinho, chamado assim para se distinguir do pai Armindo, que já antes herdara o nome do progenitor. Ninguém sabe ao certo quando começou a tradição secular na família Gonçalves de todos os varões receberem o mesmo nome. Se o destino fosse traiçoeiro e colocasse no mundo um bebé do sexo feminino, então tambêm a imaginação não dava muitas tréguas e a recem-nascida não escapava a ter um Maria como primeiro nome. Era a imagem de marca daquela humilde família de carpinteiros, responsáveis por fornecerem a mobília para toda aquela rua, impedindo as excursões a Paços de Ferreira, a capital por excelência do mobiliário, e onde futebolisticamente falando, mora um dos finalistas da Taça de Portugal. Parece que ainda hoje, tantos anos passados, o passinho nervoso do Armindinho, aquele andar de formiga, como se pedisse licença ao chão para o pisar, com uma precisão cirúrgica nos dias de chuva para escapar das poças em dias de chuva diluviana. Em jeito de brincadeira, desconfiámos vezes sem conta que num daqueles bolsos da camisa branca se escondia uma barra de sabão que apagavam os efeitos do tempo e o amarrotar corrosivo do tempo. A risca, desenhada meticulosamente e com uma precisão cirúrgica , no cabelinho cortado meticulosamente de 2 em 2 meses era apenas mais um exemplo do rigor inimaginável do Armindinho. A merenda, separada pelas várias refeições em etiquetas escritas a letra desenhada que gabaria qualquer professor primário, despertava-nos uma gula, que se não fosse pecado, tinha permitido aos travessos da sala roubarem alguns dos pães ou bolos que estavam naquelas lancheiras. O Armindinho era, no dizer corrente, um copinho de leite. Branco como a cal, alérgico ao sol e aos encantos da praia. Não sei, terei de perguntar ao ministro Jaime Silva se o dr. Nuno Melo copiava nos seus tempos de estudante o meu amigo Armindinho....
Não sei se a afirmação que vou fazer a seguir me dará um bilhete sem regresso para o psiquiatra: mas nunca gostei dos heroís. Nos filmes ou nos livros sempre dou por mim a torcer pelo vilão, a quem não resta outra sina senão morrer com o peito cravado de chumbo, ou quando a imaginação do guionista vai mais longe a vida errante acaba com a queda de um precipício. Desespero com o final feliz do rapaz a quem é permitido beijar a rapariga de olhos luminosos e de cabelo dourado depois de passarem duas horas de costas voltadas pela mão desastrada do destino. Os olhares aflitos, o peito valoroso de quem tem de resolver a questão, arreganhando os dentes às traquinices nunca me seduziram. Se pudesse passava essa parte à frente e concentrava-me apenas nas cenas em que aparecia o vilão. Se a Branca de Neve não tivesse a rainha cruel a seguir-lhe os passos, a encantadora história com os 7 anões como figurantes seria uma sensaboria; se à Bela Adormecida não lhe tivesse dada a sinal cruel de morrer aos 16 anos, o final feliz e trémulo do beijo ao príncipe romântico nada tinha de especial a não ser arrepiar a pele dos mais românticos. Envaideço-me, confesso, com as frases e o cinismo dos anti-heroís. Caso isso não aconteça, e não dê para sentir a amostra da maldade de fel, dos valores pervertidos, saio a contragosto do cinema, amarrotando o bilhete e amaldiçoando os actores e quem escreveu a história... Na vida real, já não acho tanta piada aos vilões que por cá proliferam....

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O bom Jesus!

Era tentador, o cartaz. Anunciava em altas parangonas o confronto entre o presente e o futuro do Benfica. Os holofotes e a curiosidade gulosa de quem tira fotos, de quem escreve ou de quem ouve a voz ampliada pelas rádios estava centrado naquele espaço minúsculo, rectangular onde dois indivíduos gesticulam, berram, incentivam e censuram o que vinte e dois atletas fazem com uma bola a um par de metros de si. De um lado Quique, agarrado à esperança de fazer voar as Axa(s)...- perdão as asas- prateadas de um Benfica que no ano anterior deixara escapar o degrau mais baixo do pódio; do outro, Jesus, cabelo revolto, coração gelado, cerebral na hora de indicar caminhos, com nome de Messias e de santuário obrigatório para as gentes de Braga, com meio pé na Luz na próxima época e que queria premiar o clube português que a par do FC Porto mais contribuiu nas contas europeias, tendo cometido a heresia de quase calar San Siro, uns meses antes. Acocorados e de braçadeira presa ao braço, desunharam-se como poderam nas indicações. O Benfica foi melhor. Porque Eduardo e a defesa do Braga estiveram irreconhecíveis, qual supermercado de marca esmerado na hora de oferecer brindes, porque o treinador do Braga cometeu equívocos, e quando pediu à equipa para ser igual a ela mesma já era tarde e a vantagem gorda da águia inibia a ousadia bracarense. Respirou Quique de alívio, tentado quem sabe na viagem de regresso a Lisboa a ir acender uma velinha ao Bom Jesus do Monte, pensando no seu íntimo como tinha sido "bom (o outro) Jesus", o que encontrara a um par de metros de si....

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Gabriel Garcia Márquez, um rapaz simpático, que tem quase tanto jeito como eu para estas coisas da escrita, publicou há anos um livro fantástico, pequenino e que se lê numa voragem chamado "crónica de uma morte anunciada" que dá um jeitaço para fazer títulos quando a imaginação nos prega partidas abandonando-nos ao azar de nos deixar solitários, tristes e oprimidos, entregues a nós mesmos a ter de encher de caracteres a curiosidade de quem nos lê. Não sei se Quique Flores já passou os olhos pelas páginas do romance- escrito na sua língua materna, logo não há desculpas de não conseguir encontrar uma tradução bem feita, o que confesso é um enorme problema, e às vezes quase tão difícil como encontrar uma agulha no palheiro. No caso do treinador do Benfica é quase homérica a tarefa de conseguir ver uma boa exibição nos tempos mais recentes da vida da águia, conformada a mais um ano ter de trabalhar para um bronze que sabe a lata, e penso que Quique .... saberá que a sua hora chegou ao fim...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Chegou a hora de voltar a chamar a este espaço as inseparáveis Beatriz e Bernardette, o orgulho daquela rua no que toca à perversidade feminina. Sentadas naqueles banquinhos amarelos, enregelavam no Inverno e suavam no Verão, na rotina diária de comentar tudo o que mexesse naquela rua, até mesmo se uma praga de formigas decidisse invadir alguma casa seduzida por um pedaço de açúcar. Todos os temas eram apetecíveis, porque eram acessíveis. Levavam muito a sério a sua missão de comentadoras versáteis, uma espécie remota do que viria a ser o Miguel Sousa Tavares e outros que nos enchem as televisões com as suas opiniões, às vezes avalizadas outras nem por isso. A pujança das críticas atingia o apogeu com a Etelvina, a mais odiada da rua, que apenas frequentava para ir dormir, isto porque tinha a irritante mania de ir comprar na rua ao lado tudo o que precisava. O facto irritava Beatriz e Bernardette para quem aquela rua era o lugar sagrado e levavam muito a peito o limite geográfico. Uma questão de honra. Ficou apenas manchada quando o padre Sobrinho encontrou residência na rua fronteira, que deixou as duas cuscas à beira do desespero, a ponto de nunca mais voltarem a por os pés na igreja e de num acto de fé terem transformado o quintal germinado num autêntico santuário...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tenho pena de nunca ter apresentado a D. Aurora ao ministro Manuel Pinho. Garanto-vos que se iam dar bem. A generosidade da cozinheira com quem aprendi a fazer algumas sobremesas-sim, digo-vos que gosto e muito de cozinhar- sempre a oferecer pratos de leite creme ou mousse de chocolate a quem passava na rua, arrastando o robe encarnado aos folhos e os eternos rolos que só largava em ocasiões de festa, não tinha preço. Nos dias de férias, logo depois do raiar da aurora era a azáfama. Visitávamos a mercearia da Mariana, de onde tirávamos o stock da farinha maiezena, os ovos, a manteiga e o açucar, que como qualquer doceiro que se prese sabe são essenciais e metíamos a mão na massa. O sorriso na cara, era o mesmo que vi o ministro da Economia fazer quando tirou aquelas fotografias com o Micheal Phelps, no Verão passado, no mesmo Allgarve que quis vender aos ingleses que por lá deixaram ficar uma Maddie aqui há dois anos, numa praia da Luz que agora é uma escuridão. Os nossos bolos eram um regalo, e se ainda for a tempo juro que faço o meu bolo de iogurte e ofereço um pouco ao dr. Paulo Rangel, com quem tenho o prazer de partilhar o ginásio algumas vezes para abater as calorias... e, porque não ao ministro Pinho claro, porque assim sempre fica com a boca cheia... e em boca cheia....

sábado, 2 de maio de 2009

Ela viera ao ledo engano. Telemóvel colado à orelha, olhos pisados por uma noite de excessos e um sorriso escarolado desenhado em toda a extensão da boca. Os olhos negros e perscrutadores em sobressalto, em constante movimento. Percorria as mesas, soltando a cada olhar as faiscas da tristeza. Ele não viera. A decepção toma conta de si. Percorre cada milímetro do corpo à medida que vai escorrendo monossílabos para quem está do outro lado da linha. Parece uma trapezista no número arriscado do trapézio sem rede. O equilibrio, o cenário de sonho de um final de tarde imaginado, imaginário, féerico, esvaiu-se. O sorriso doce tornou-se amargo. Decidida, nem ligou aos olhares clandestinos que os homens lhe lançavam à passagem. Imprimiu uma velocidade estonteante e saiu.
Ele chegou com o sorriso enigmático de Gioconda. Não era possível saber se tinha sido promovido no emprego ou se a mulher lhe deixara na mesa-de-cabeceira um bilhete a despedir-se do casamento. Não reagiu quando a empregada o cumprimentou. O sorriso a tracejado manteve-o, os olhos imóveis indicavam-lhe o caminho para a mesa, que seguiu disciplinado, sem pestanejar. Pela greta das pálpebras consultou a ementa num vagar oriental. Meneou a cabeça ao ver as sugestões, sem significado especial, nem outro destinatário a não ser ele mesmo. Seria mesmo só para ele. Remexeu nos bolsos, passou a mão pelo cabelo loiro sem brilho, treinou a pose de óculos escuros, mas rapidamente percebeu que o estatuto de galã ensaiado longos dias ao espelho não era apropriado. Ficou imóvel e em silêncio, olhando gulosamente para a empregada que se afastava, depois de lhe ter pedido uma cerveja. Quando a bebida chegou, enorme, escorrendo de espuma pelas paredes frias do vidro do copo, atirou-se a ela com a avidez de um milionário forreta pelo extracto bancário. Bebeu-a de um trago, pousou o copo, ensaiou um arroto e ficou imóvel a fixar o copo vazio e derrotado. Não tentou recuperar o sorriso, que se desvanecia no fim de tarde nebuloso, o olhar contemplativo cada vez mais cerrado, os olhos pareciam pesar toneladas e resignar-se. Inclinou-se devagar e foi caindo, caindo, até cair de cabeça, qual mergulhador mal treinado na piscina. Esquecido de si, adormeceu no tampo da mesa. O sono estático, mas merecido de quem nunca mais queria acordar...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Já há alguns anos que o país seguia os trilhos da liberdade. O polivalente do então Liceu estava a abarrotar de ideias e de entusiasmo, numa dessas reuniões que pode não servir para mais nada a não ser para uma gazeta saborosa a umas aulas,o que até calhava bem, já que coincidia com um teste de Matemática que ninguém queria fazer. E depois, em cima da mesa de discussão estaria o futuro, uma coisa sempre importante, talvez até mais vital do que o presente. A reunião estava uma autêntica balbúrdia. Vozes descontroladas, gritos sobrepostos, ideias soltas em surdina, sem qualquer tipo de entendimento possível. Julgo que ouvi uma vez dizer o professor Hermano Saraiva, que em 1385 o mestre de Aviz teve de se zangar a sério com o Conde de Andeiro para que pudéssemos ter alguma ordem no país; anos depois foi preciso mandar o traidor Miguel de Vasconcellos pela janela para recuperar a Independência . Numa mesa encostada ao canto, alérgicos a tanta vozearia e discussão estéril, quatro alunos jogavam as cartas. dentes cerrados, olhar concentrado no ritmo e nos naipes que iam saindo, bem como nos olhares apavorados e ameaçadores que se podia observar saídos de adversários ou do parceiro de equipa. Era quase uma questão de honra. Aquela discussão selvagem traía todos os esforços de concentração, necessária quanto mais não fosse quando estava em causa um jantar com a Angelina, a dona do sorriso mais sensual do liceu e portadora das sardas mais bonitas que alguma vez vi. Farto e chateado, o Aníbal, fez uso da sua voz de trovão, grossa e que assustava os adversários nos jogos de futebol, pegou no microfone e disse: "É favor fazerem pouco barulho que há gente que precisa de se concentrar no jogo de cartas. Falem um de cada vez, por favor". A plateia abarrotou de riso, deliciada com a oportunidade do comentário, até porque se iniciava o decisivo jogo que desfazeria o empate teimoso que até então vigorava, serenou os ânimos, e percebeu-se que por vezes um jogo de cartas consegue ser mais importante do que um punhado de ideias importantes dadas avulsamente e sem qualquer ordem...
Julgo que ninguêm ficou com dúvidas sobre a tristeza que invadiu aquela rua aos paralelos, no dia em que a Mariana fechou as portas castanhas, quase beges quando a chuva fazia das suas permitindo que pudessemos atirar as roupas leves para um canto do guarda-fatos ou para a arca quadriculada a verde e azul, porque chovia sempre e não havia perigo de errar. Agora, S. Pedro espreme as nuvens quando quer, volta e meia está sol e quando calha até neva. Se tivessem conhecido o Dedo Gordo de certo que não se espantavam que ele atribuísse as culpas ao Governo por este tempo desorientado, por esta bandalheira que até já chegou ao clima. Ninguém o podia levar a mal. Convém explicar que a alcunha foi fruto do acaso, ou melhor dito, de uma martelada errada no polegar, acompanhado de palavreado menos conveniente, quando Alfredo Fernandes Silva, em plena actividade de carpinteiro, se distraíu ao olhar pela janela que consertava. Nunca mais o dedo ficou igual ao que era antes, exibindo para sempre a marca daquele descuido fatal.
Era um regalo para a congestão toda a sapiência política daquele homem, que dissertava na esquina da mercearia da Mariana, às vezes sozinho, outras vezes conseguindo juntar um grupo de jovens à sua volta, porque os mais velhos estavam entretidos com o dominó e já há muito que se incompatibilizaram com aquela teoria de culpar o executivo por todos os males e a muito fresca revolução de Abril, que encheu de cravos um Portugal magoado e oprimido, que o fez sonhar sem muito bem saber porquê. De pé, porque ganhara aversão às cadeiras desde que Salazar caiu de uma, empertigado nos vaticinios, como quando a Mariana não resistiu a um mini-mercado de prateleiras asseadas e preços mais em conta, o Dedo Gordo vaticinou a perda de identidade do país, destroçado com o progresso e a falta de apoio a um pilar da sociedade essencial: a família. Refinado fascista repetia que só os tachos interessam. Mais tarde os tachos foram conhecidos por "jobs" que engordam os melhor nutridos e fazem os mais magros perder peso. A esperança já se tingiu de vermelho, coloriu-se de laranja, passou a rosa e dizem que vai voltar à tonalidade de laranja. E chamem-lhe o que quiserem: amizades, compadrios, tachos, jobs, o facto é que eles existem e continuarão a existir, como o Dedo Gordo faz questão de lembrar...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Os leitores mais atentos já conhecem D. Birgolina. Para aqueles reprovados por faltas pela irregularidade com que por aqui passam- o que não levo a mal- faço o favor de a apresentar. Uma palavra define-a: cusca. Para sermos mais exactos e cumprirmos o que nos foi pedido primeiro por Cavaco e a seguir por Manuela Ferreira Leite devemos acrescentar: a cusca, a intriguista. Naquela cozinha branca tinha dois objectos de adoração devota: um cruxifixo e um emblema do Sporting. Ai de quem por ali entrasse e não olhasse respeitosamente e demoradamente para aquele leãozinho, por acaso parecido com o que ruge no início de alguns filmes, ou como ela dizia, o "dos cinemas". E, realmente, ninguém se atrevia a entrar naquela casinha modesta da vendedora de fruta- com as caixas empacotadas na porta exígua sempre aberta, sem prestar a verdadeira veneração pelo animal que na escola nos ensinaram ser o rei dos animais. Uma vez ganhei três laranjas por dizer que era do Sporting. Três dias depois, e porque não há fita que não se descubra, nem um bom dia para amostra. D. Birgolina detestava a "besta" como chamava à vizinha do lado, que só para a ver com as fartíssimas orelhas a mexer dizia que era do Benfica, onde tempos antes jogara esse rapazinho com alguma habilidade chamado Eusébio, verdadeiro apreciador de marisco, nem que quisesse dizer tremoços. Nos "casos do dia" daquela rua aos paralelos havia sempre algo em que a parceira de porta estava envolvida, mesmo que saísse da fértil imaginação: ou tinha sempre o outro lado da cama aquecido, ou a roupa surripiada ao estendal alheio tinha as impressões digitais da vizinha, a quem não perdoava a adoração pelo clube dos seis milhões. D. Birgolina, apesar de tudo deixou saudades e mesmo morta por uma síncope, foi-lhe difícil arrancar das mãos cruxifico e o emblema do Sporting. E morreu com certeza zangada com a vizinha e comigo....

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Era uma maravilha. Saía de casa, logo de manhã, com os escudos-hoje euros- suficientes no bolso para fazer a viagem de camioneta até ao Liceu de Matosinhos. Plantava-me na paragem de camioneta, junto ao muro do terreno do Macedo, onde hoje está edificado um prédio de seis andares. Certificava-me que o caminho estava livre e atravessava pelo meu próprio pé a rua que conduzia até à ponte móvel. Pelo caminho ia de namoro com a Gracinha e quase sempre chegávamos atrasados à primeira aula, que ainda por cima era a mais chata do dia, calhando muitas vezes a matemática a honra de inaugurar o nosso dia escolar, porque nos perdíamos em beijos dados assim à socapa na viela dos Quicas, a seita mais tenebrosa do concelho a.N. (antes de Narciso), embora fossem condescendentes para um casal de namoradinhos aí pelos quinze anos, a rebentar de acne por todos os lados. Era uma forma de poupar e ganhar. Poupava dinheiro para o SG Filtro que estava na moda e para uns almoços mais substanciais na cantina e ganhava direito a uns beijinhos à socapa, que quem não gosta deles assim não deve ser filho de boa gente certamente.
Atravessar a ponte móvel era, pois um acto de namoro mas igualmente de poupança que durou até lá em casa descobrirem que afinal o dinheiro das camionetas era para o tabaco. O corte do subsídio familiar foi imediato. Além de ser forçado à caminhada mesmo em dias de chuva diluviana, fui obrigado a fumar avulso e a ter um isqueiro pronto para, como outros, alinhar na técnica do crava...