terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um adeus especial

NOVA IORQUE,- Lentamente, o pássaro gigante das asas compridas vai tentando levantar o voo picado rumo ao céu azul paleta que se estende sem nuvens à sua frente. Resignado, como se tambêm ele quisesse ficar. Há sempre algo de nostálgico nas partidas. Olho para o lado. As hospedeiras começam a desenhar na cara o sorriso plastificado de locutora de continuidade. Indiferente a estados de alma, vontades, são sempre iguais. Parece que vão vender baixelas num desses programas que se estendem madrugada a fora pelas programações da televisão. Passos delicados, cujo íntimo devia querer encarnar a figura do mestre-escola a reprimir os miudos traquinas que vão mexer pela última vez na mala que viaja lá em cima a um palmo da cabeça. Mexo-me na cadeira resignado. Poderia saltar estas oito horas, matá-las com o sono que se reprime, e acordar já em casa ou no táxi. Não tenho sorte. Tenho mesmo que as viver e as sentir. Olho para o lado. Um inglês vermelhusco põe em dia os mexiricos da realeza e de outras figuras de sangue mais azul que os outros. Parece um lagarto acabado de tostar. Tem o ar de uma esfinge de cera. Concentrado na leitura nem se dá conta da voz monocórdica do comissário de bordo a debitar a sua lengalenga obsessiva de distâncias, temperaturas e altitudes, que me irrita. Reclino-me na cadeira. Abro o livro e penso no Proust. Apetecia-me ter uma madalena para mergulhar no café. Tambêm eu ando à procura do meu tempo perdido, qual Indiana Jones do seculo XXI, inconformado com a estafa da viagem pelo Atlântico que já foi bem maior no tempo desses valerosos heroís do mar...

domingo, 17 de agosto de 2008

o roedor de carteiras

NOVA IORQUE- Passeio pela 5ª avenida um pouco ao acaso. Só para ver. Vim para descobrir. Pouso a vontade frémita do andar veloz e dos segundos contados no hotel. Incorporo a tartaruga no seu vagoroso andar com a casa às costas. Um pouco como eu, cansado do "faz e desafaz" das malas do dia-a-dia, mas ainda preparado para pregar uma partida às lebres que se encontram na vida. A noite está agradável, a lua gorda e espessa o que agradaria o Dexter Morgan se por aqui andasse. Á minha frente um jovem casal de amor recente demonstrado a cada passo e meio, vai travando a cada montra de nome italiano e arregala os olhos. Passo sem ver. Qual aeroporto em hora de ponta. Nunca consigo entrar e experimentar nada. Dá-me logo a ânsia de dali sair,de perferência com toneladas de sacos às costas e chegar a casa e já encontrar as roupas novas no armário. Manias. Apenas faisco os olhos nos livros e DVDS. Vício antigo, borbulha nas entranhas do meu corpo e pica-me de quando em vez para a necessidade de comprar novas séries e novos filmes. Seduzem-me as capas, as sinopses e vou feliz qual cão agarrado a um osso. Roendo a carteira os útimos cêntimos, deixando-a sozinha, mas... cheio de sacos com horas de séries para ver...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Devo parecer acabado

LOS ANGELES- Os sonos trocados pelo relógio biológico que dá horas quando não deve. Ao menos se lhe pudesse acertar os ponteiros... Nada parece fazer sentido. Nem as manhãs se parecem como tal, nem as noites tem a textura das noites. É como se brincasse à cabra-cega com os hábitos do meu corpo. Ideias difusas, instintos desencontrados, claridade quando se espera escuridão. O corpo moído, a indiferença das olheiras pesadas, pés arrastados na perigosa indiferença dos passos descontrolados. Passeio vagorosamente pela Sunset Boulevard do muito afamado filme da Gloria Swason e do William Holden, vejo de perto mas de esguelha os locais de Hollywood, que o cinema imortalizou com a sua colina, mas não consigo rasgar um sorriso, nem um suspiro de adrenalina nem comoção. Antes a resignação e o cansaço tão incompatíveis com a voragem henriquina que em mim habita. Se a Branca de Neve me deixasse so me faltava a barba e o barrete e encarnava bem o Zangado... Algo anormal em mim... Devo mesmo parecer acabado...